Casamento: Uma Teologia Bíblica

October 6, 2017

 

“Por isso, deixa o homem pai e mãe e se une à sua mulher, tornando-se os dois uma só carne.” (Gn.2.24)

 

O assunto está no auge, ainda que o casamento esteja passando por uma de suas piores crises da história humana. Há diversos livros tratando sobre o assunto e, parece-me que a maioria tem como propósito adequar a Escritura a esta geração ao invés de conduzir as pessoas ao casamento conforme a Palavra de Deus. Por conseguinte, o número de divórcios entre cristãos tem aumentado tão consideravelmente quanto entre aqueles que não são cristãos.

 

Por esta razão, nosso propósito aqui não é tirar peso da consciência de quem pretende se divorciar, mas mostrar qual o verdadeiro ensino bíblico sobre o casamento e o divórcio, respondendo as perguntas: O que Deus ensina sobre o casamento? A separação é permitida pela Bíblia? Pessoas separadas podem casar outra vez? O que fazer para ter um casamento bíblico? Os mandamentos do Senhor sobre o casamento tem validade para todas as gerações?

 

Estas e outras questões serão respondidas por meio de uma teologia bíblica do casamento. Ou seja, desejamos demonstrar o ensino da Escritura sobre o casamento em cada etapa da história humana: 1) O casamento no Éden; 2) O casamento antes da Lei; 3) O casamento entre a Lei e Cristo; 4) O casamento em Cristo; 5) A eternidade e o casamento. Por meio de uma teologia bíblica do casamento, poderemos compreender melhor os problemas que ocorreram em cada período e a resposta divina para eles.

 

 

O CASAMENTO NO ÉDEN

 

O casamento é uma bênção divina que aponta para Cristo. O fato de ser uma bênção é evidente nas primeiras páginas de Gênesis quando o Senhor cria a mulher como presente gracioso para o homem solitário. Adão havia recebido do Senhor a missão de cultivar e guardar o jardim (Gn.2.15) e, ainda no sexto dia da criação, ele começou a exercer sua missão organizando a criação ao nomear os animais. O homem estava num paraíso, plantado por Deus, bem regado, com ouro e pedras preciosas, árvores frutíferas e animais de diversas espécies (Gn.2.8). No Éden, não havia sofrimento nem fome nem morte. Tudo era perfeito e harmônico, tudo era lindo e agradável. Todavia, a beleza e perfeição da criação não foram suficientes para Adão, pois, em meio a todas as maravilhas criadas pelo Senhor, o homem sentiu falta de uma companhia com a qual pudesse partilhar todos os encantos da vida gerada por Deus.

 

Esse vazio do coração do homem pode ser considerado instrumento para o cumprimento dos planos do Senhor (Pv.21.1). O propósito de Deus nunca foi ter apenas um homem em meio a toda a criação. O profeta Malaquias faz menção do casamento como propósito gerador desde o início: “E não fez Ele somente um, ainda que lhe sobrasse o espírito? E por que somente um? Ele buscava uma descendência para Deus” (Ml.2.15 ou “descendência de Deus”). Conforme o profeta, portanto, todos os seres humanos vieram de uma só pessoa, Adão, por que Deus queria trazer uma descendência especial, na qual todos estariam ligados. Para os judeus essa descendência é o povo de Israel, mas para o cristão, conforme o Novo Testamento, a descendência prometida é Cristo (Gl.3.16,19), no qual todos estamos ligados, tanto pela carne quanto pela fé, formando um só corpo, o corpo de Cristo (1Co.12.27).

 

Diante da necessidade sentida por Adão, Deus formou a mulher a partir da costela do homem (Gn.2.21-22). O poema que Adão pronunciou ao ver a mulher (Gn.2.23) demonstra sua alegria em ter uma companheira semelhante a ele com a qual poderia dividir as tarefas, conversar sobre as maravilhas de Deus e formar um povo santo para o Senhor. O homem foi a fonte primária da mulher, a fim de indicar sua primazia sobre a mesma, para que lhe estivesse subordinada por todos os dias (1Co.11.8-9), ao mesmo tempo em que ele teria a responsabilidade de cuidar daquela que era carne de sua carne e osso de seus ossos (Gn.2.23). Surge uma relação marcada pelo dever-responsabilidade de ambos em que o homem teria o dever-responsabilidade de cuidar da mulher e a mulher teria o dever-responsabilidade de ajudar o homem, sendo-lhe, portanto, submissa em tudo (Ef.5.24).

 

Havia uma íntima ligação entre o homem e a mulher, pois esta fora feita daquele. A forma como o ato criativo de Deus se deu estabeleceu as características da relação conjugal a partir dos primeiros pais (liderança e submissão, cuidado e respeito etc.). Todas as vezes que um homem quisesse se unir a uma mulher, o faria por meio da formação de uma família, deixando pai e mãe e “tornando-se os dois uma só carne” (Gn.2.24). Esta ultima expressão do versículo indica a presença de uma aliança pela qual eles estariam ligados por toda a vida. A aliança seria confirmada por meio do ato sexual que, curiosamente, possui um elemento comum ao estabelecimento das alianças no Antigo Testamento: o derramar de sangue. Quando o homem se relaciona, sexualmente, pela primeira vez, com sua mulher, ele corta o hímen dela, fazendo com que a mulher derrame sangue em sua primeira relação com o marido. Uma vez que não havia morte no paraíso, o “lacre” da mulher só seria rompido uma única vez, estabelecendo uma aliança conjugal permanente. A aliança matrimonial, então, era confirmada por meio do ato sexual que, no derramar de sangue, aponta para seu caráter vital.

 

Esse fenômeno nos lembra da forma como as alianças eram estabelecidas no passado, antes dos contratos de papel, a semelhança do que ocorreu com Abraão (Gn.15). Os participantes matavam animais, partindo-os ao meio e colocavam suas bandas uma afastada da outra para que pudessem passar pelo meio num gesto que significa: assim como esses animais foram partidos, será aquele que quebrar a aliança aqui estabelecida. Algumas culturas costumam ferir o corpo (normalmente dedo ou mão), a fim de extrair sangue que será partilhado com o outro, simbolizando uma aliança de sangue, ou seja, de vida entre indivíduos (alguns ainda possuem essa prática, hoje). Esses símbolos apontam para o caráter permanente e irrevogável da palavra (voto) que uma vez dada não poderia ser desfeita (Js.9.19). As alianças duravam para a vida inteira e, por isso, eram alianças de vida, pois este foi o modelo dado por Deus a partir da aliança conjugal estabelecida no Éden.

 

Portanto, no Éden, o casamento duraria para sempre. Ou seja, enquanto Adão e Eva estivessem vivos (ou seja, enquanto não pecassem trazendo morte para a criação) eles estariam casados. O casamento não teria fim enquanto fossem imortais. Para um mundo de pecados, isso pode soar como uma longa prisão. Mas, devemos lembrar que Adão e Eva eram perfeitos e, portanto, o relacionamento, também, era perfeito. Casamento era sinônimo de amizade, partilha, cumplicidade, auxílio, carinho, cuidado mútuo etc. Desta forma, ter um cônjuge significava ter alguém para amar e ser amado por toda a vida, compartilhando as maravilhas de uma vida no paraíso. Portanto, o que já era bom, o paraíso, com o casamento ficou ainda melhor.

 

O casamento cumpriria diversos papéis fundamentais: 1) Veicular o nascimento do Filho de Deus, conforme plano divino elaborado antes da criação, a respeito da redenção do homem (Jo.17.24; 1Co.2.7; Ef.1.4; 1Pe.1.20); 2) Promover auxílio para o bom desempenho das ordenanças dadas por Deus ao homem, de forma que cultivar e guardar o jardim fosse partilhado por sua companheira; 3) Formar um povo santo para Deus, constituído de famílias firmadas em aliança, a partir do fiel relacionamento conjugal entre o homem e sua mulher; 4) Proporcionar uma relação de comunhão entre seres humanos, a fim de que houvesse mútuo cuidado, edificação, carinho e auxílio em tudo; 5) Ser uma oficina para o exercício das virtudes divinas partilhadas pelo homem. Desses papéis, evidentemente o primeiro já alcançou seu cumprimento, pois o Filho de Deus já nasceu, morreu, ressuscitou e subiu aos céus. Porém, os demais papéis permanecem em pleno vigor até a volta de Jesus, confirmados pelo restante da Escritura, Antigo e Novo Testamento (Cantares de Salomão, Salmo 127; Salmo 128; Efésios 5.22-31 etc).

 

A partir do exposto acima, podemos deduzir como era a vida familiar de Adão e Eva no paraíso. Deus os criara perfeitos, sem pecado, sem maldade. Portanto, o relacionamento deles adequava-se perfeitamente ao que Deus havia estipulado, ou seja, o homem era o cabeça da família e cuidava da mulher com amor e responsabilidade, tornando a vida de Eva agradável e tranquila, pois seu marido a amava e provia tudo o que era necessário para que ela tivesse conforto e direção certa conforme a Palavra de Deus. De forma semelhante, a mulher cumpria seu papel de ajudar o homem em suas tarefas estipuladas por Deus, sendo-lhe submissa. Essa submissão tornava a liderança de Adão mais fácil, pois encontrava em Eva tanto uma companheira de trabalho como, também, uma subordinada fiel. Ou seja, não havia discussões, pois ambos cumpriam bem o papel a eles designados. A harmonia familiar provinha do fiel exercício do papel de cada um. Assim, eles estariam sempre satisfeitos um com o outro e seus diálogos santos estariam adornados de gratidão e alegria, focados no Criador que lhes proporcionara todas as bênçãos e os visitava na viração do dia (Gn.3.8), a fim de ver como estava aquela família estabelecida em aliança para toda a vida.

 

A partir de Gênesis 3, toda a história humana será vivida debaixo do pecado. Devemos considerar, portanto, quão importante é o texto narrativo da criação (Gn.1-2), pois nele o Senhor revelou sua vontade perfeita ao homem (uma aliança matrimonial indissolúvel, estabelecida para toda a vida), ensinando-lhe o padrão para todas as coisas dentro de um contexto santo e puro. Desta forma, o modelo conjugal perfeito para todas as épocas da história humana encontra-se em Gênesis 2, quando o ambiente possibilitava uma vida plena em acordo com a revelação divina. Depois da queda, isso não acontecerá, pois o pecado impossibilitou o homem de viver uma vida plena com Deus. Segue-se, então, que o povo de Deus sempre será remetido pela Escritura para a narrativa da criação, como fez Jesus ao dizer: “desde o princípio da criação, Deus os fez homem e mulher” (Mc.10.6). Esse padrão perfeito estabelecido por Deus permanece como referencial para o qual todos devem olhar, mas somente em Cristo ele é restaurado, por meio da capacitação do Espírito Santo que, operando a santificação na igreja, torna o cristão apto a viver a perfeita vontade de Deus.

 

 

O CASAMENTO ANTES DA LEI

 

Tudo estava muito bom até que a mulher deu ouvidos ao tentador (Gn.3.1-7). Eva quebrou seu dever-responsabilidade de ser submissa ao marido, agindo de forma contrária às ordens antes estabelecidas por Deus e ensinadas pelo homem. Observe-se, no entanto, que a infidelidade da mulher ao seu papel estabelecido por Deus, em sua relação com o homem, não anulou sua aliança com o marido. Ao cobiçar a glória de Deus, o homem e a mulher deram início a uma nova etapa para toda a criação. O pecado entrou no mundo e com ele a imperfeição, desarmonia e sofrimento. Eles não mais estariam em um paraíso, onde tudo era perfeito, inclusive eles, mas em um mundo de “cardos e abrolhos”, dor e suor, até a morte (Gn.3.18, 16, 19). Essa nova etapa afetou, também, a relação familiar de Adão e Eva e seus descendentes, pois a partir daquele dia, o pecado estaria presente no coração tanto do homem quanto da mulher, inclinando-os a tudo o que é mau. A vontade do Senhor deixou de ser o centro da vida individual e familiar sendo substituída pela própria vontade (Pv.16.2; Jr.17.9).

 

Os capítulos 3 a 11 de Gênesis nos contam as consequências cósmicas da queda. Diversos pecados são cometidos em pouco tempo, exigindo a intervenção divina diversas vezes (Gn.4.10-16; 6-9; 11.1-9). O primeiro dano causado pelo pecado ocorreu dentro da família, quando Caim matou seu irmão Abel (Gn.4.8). Em seguida, Lameque, descendente de Caim, toma para si duas esposas (Gn.4.19). O coração pecador repudiou o casamento estabelecido por Deus, criando novas formas de se relacionar com o fim de alcançar a satisfação pessoal, tentando preencher o vazio do coração sem Deus. O homem passa a dominar sobre a mulher com tirania, fazendo dela um objeto sexual para satisfação de seus apetites incontroláveis. Então, os descendentes de Caim se proliferam desordenadamente reproduzindo gerações sem domínio de si, sem lei, sem compromisso. Durante certo tempo, os descendentes de Sete, filho de Adão, conseguem viver uma relação familiar agradável, gerando filhos santos (Gn.5.21-24; 28-29). Todavia, a força do pecado sobrepôs o santo temor que os filhos de Deus tinham em seu coração e, sem lei, se deixaram conduzir pelas paixões do coração pecador (Gn.6.2). A população cresce e os filhos malignos seduzem os filhos de Deus conduzindo-os a relações familiares pagãs. As mulheres se rebaixaram ao status de objeto sexual dos homens e estes tomavam para si tantas quantas podiam sustentar (Gn.6.1-2).

 

As relações familiares estavam de tal modo deformadas que Deus decidiu destruir a humanidade. O homem tornou-se um tirano dominando sobre a mulher para seu próprio benefício, fazendo-a vulgar ou escrava e, portanto, infeliz. A mulher deixou sua submissão sadia para adotar uma postura máscula ou escrava. A visão familiar original estava perdida e os filhos aprendiam com seus pais aquele que seria o comportamento pagão padrão para as gerações e nações espalhadas pelo mundo. As gerações que tinham o conhecimento de Deus estavam morrendo e a vontade de Deus revelada para Adão e Eva estava se perdendo. Não havia lei, não havia regra. Então, o mundo seguiu seus próprios passos rumo à destruição de tudo, de si mesmo.

 

A ausência da Palavra de Deus nos dias anteriores a Moisés trouxe diversos malefícios, pois o enganoso coração do homem o conduzia para bem longe do Criador. Sem Lei, os jovens aprendiam de seus pais apenas o senso comum que, em sua grande maioria, era bastante deformado. Algumas gerações haviam conservado o conhecimento de Deus revelado no Éden, oferecendo para a posteridade uma educação melhor, mas ainda bastante deficiente. Diante de toda essa deficiência decorrente da falta de conhecimento do Senhor, a Escritura diz que “não levou Deus em conta os tempos da ignorância” (At.17.30). Contudo, a família sofreu muito nesses dias, pois nem o homem nem a mulher sabia viver seu respectivo papel em acordo com a vontade de Deus revelada no Paraíso.

 

Pouco podemos falar sobre esse período por falta de informações, mas conforme a narrativa de Gênesis 4.1-24, aqueles dias foram imorais, violentos e ambiciosos. As cidades foram construídas para saciar os desejos do homem e a masculinidade deixou de refletir o caráter de Deus que criou o homem a sua imagem e semelhança. Quase nada se aproveitava daqueles dias, a não ser uma família que havia preservado o mandamento do Senhor, mantendo-se fiel à aliança matrimonial, gerando filhos para Deus (Gn.6.8-10). A família de Noé manteve o padrão estabelecido por Deus: aliança entre um homem e uma mulher para toda a vida. Seus filhos foram ensinados da mesma forma, tendo em seus pais o modelo (Gn.6.18). Cada filho casou com uma mulher, mostrando que, apesar do caos do mundo, a Palavra do Senhor dada para Adão e Eva mantinha-se acesa no coração dos filhos de Deus. Ao matar todos os homens, preservando apenas a família de Noé e seus filhos, Deus reafirmou sua vontade para o homem a cerca dos mandatos originais dados no paraíso. Todas as formas estranhas de relacionamentos, não previstas por Deus no Éden foram reprovadas pelo Senhor, quer a poligamia quer o divórcio quer o homossexualismo.

 

Portanto, sem o conhecimento de Deus, as famílias vivem de acordo com o coração pecador sem perceberem que o pecado distorce a noção de certo e errado, bom e ruim, a fim de atender ao desejo mais egoísta do pecador. Assim, o casamento tornou-se sinônimo de infelicidade, sendo substituído pelo simples saciar das necessidades sexuais sem qualquer compromisso. O bem estar da família clama pela direção divina, necessitando da Lei do Senhor, a fim de que homem e mulher saibam (cada um) o papel que deve desempenhar para o bem estar de ambos. Hoje, temos a lei do Senhor e toda tentativa de distorcer o modelo familiar estabelecido por Deus não pode ser considerado como ignorância (em níveis gerais), mas rebelde afronta do mundo “anti-Deus” contra o Criador, com o propósito de saciar os desejos carnais do coração pecador.

 

Todavia, não podemos negar que algumas pessoas têm cometido o erro do divórcio por ignorância, tendo em vista que a interpretação correta dos textos nem sempre é conhecida. Esse fenômeno não justifica o pecado nem o aprova, mas conduz-nos às misericórdias de Deus que “não levou Deus em conta os tempos da ignorância” (At.17.30). Ou seja, mesmo que o mundo não tenha mais o argumento de não conhecer a vontade de Deus, o Senhor pode tratar alguns casos particulares como reais casos de ignorância acerca do pecado. Essas pessoas devem ser tratadas com misericórdia e ensinadas para que procedam corretamente a partir do verdadeiro conhecimento da vontade divina revelada, assim como Jesus tratou a mulher samaritana de João 4.15-30.

 

 

O CASAMENTO NO PERÍODO ENTRE A LEI E CRISTO

 

Após o dilúvio, a sociedade começou a se estruturar outra vez, tendo como base legal apenas aquilo que fora revelado no Éden e, também, a Noé após o dilúvio (Gn.2.15-24; 9.1-29). O pouco conteúdo revelado sobre a vontade do Senhor era suficiente para que o ser humano vivesse pela fé nas promessas de Deus, agindo de acordo com a vontade do Senhor, construindo cidades tementes a Deus. Todavia, o homem sentiu falta de mais leis e cada nação criou suas próprias regras. Dentre elas, estavam estatutos contrários à Lei do Senhor. A família, então, passou, outra vez, a ser guiada conforme convenções humanas, criando problemas para o indivíduo e a sociedade, ao contrariar a Lei primária estabelecida por Deus no Éden.

 

Quando a Lei foi entregue para Israel (Ex.20), a vida familiar já estava distorcida. O mundo pagão aderiu a novos costumes e os espalhou pelo mundo (Gn.29.26-27). Por isso, poligamia, divórcio e homossexualismo voltaram a serem práticas aceitas pela sociedade. Enganado por Labão, Jacó se casou com duas jovens irmãs e teve filhos de quatro mulheres (Gn.29.31-30.24; 35.16-18). Esse mal trouxe diversos prejuízos para a família, vistos na história de seus filhos (Gn.34-50). Em vez de amor, cuidado, fidelidade, cumplicidade e partilha, a família viveu dramas profundos que somente foram vencidos por causa da graça de Deus derramada sobre eles (Gn.45-50). As experiências sociais clamavam por intervenção divina, de forma que a Lei do Senhor tornou-se necessária para reconduzir o povo de Deus a uma vida santa em conformidade com sua santa vontade.

 

Dá-se início a uma nova etapa para o ser humano. Por meio de Moisés, Deus entregou sua Lei para Israel, uma herança para toda a humanidade, a fim de guiar o mundo na justiça. Todavia, Moisés recebeu do Senhor a autorização para dar ao povo leis niveladas ao estado em que se encontrava o ser humano duro de coração (Mt.19.8). Sem o Espírito de Deus para capacitar o pecador a viver segundo a santidade da Lei do Senhor (Ez.36.26-27), o homem jamais conseguiria proceder de forma santa e agradável a Deus (Jo.8.43). Esta Lei escondia em seu coração a profundidade do que Deus queria para seu povo (Ex.20.1-17; Mt.5-7), mas fora dada com tamanha simplicidade que se adequava à pobre realidade em que se encontrava o coração do homem.

 

O primeiro mandamento, dado por Moisés, a fim de reger a vida conjugal, nos dias de Israel, foi: “Não adulterarás!” (Ex.20.14). A relação matrimonial deveria ser regida pela fidelidade. Esse mandamento reafirma a forma original como o casamento foi estabelecido, uma aliança indissolúvel entre um homem e uma mulher para toda a vida. Contudo, a dureza do coração humano não foi capaz de entender a dimensão daquilo que Deus estava reafirmando por meio desse curto mandamento. E por causa dos problemas existentes nas relações, fruto do pecado no ser humano, as pessoas passaram a desejar a troca de cônjuge, esperando encontrar alguém melhor para conviver (Dt.22.13). Desta forma, o povo ignorava que o problema dos casamentos chamava-se pecado e este encontrava-se no coração de todos os pecadores, indistintamente.

 

Foi diante dessa dureza de coração, para compreender a beleza da vontade do Senhor revelada em seu ato criativo narrado em Gênesis 1-2 (Mc.10.2-9), que Moisés “permitiu” ao povo de Deus o divórcio, com o fim de pôr ordem na vida social dentro de Israel, para que o pecado não tornasse a nação em um caos semelhante ao que ocorrera com Sodoma e Gomorra e com os povos que antes habitaram a terra de Canaã (Dt.12.29-31). Moisés pôs ordem em práticas comuns, a fim de que as relações familiares não se tornassem mais vulgares do que já estavam.

 

No Evangelho de Mateus (o mesmo não acontece em Marcos e Lucas), Cristo corrige a visão distorcida dos líderes da época, acerca do casamento (Mt.19.7-8), trocando o termo “mandar” (entéllo) por permitir “permitir” (epitrépo). Após Jesus reafirmar o mandato social inicial (Mt.19.4-6), dado por Deus ao homem, no sexto dia da criação (Gn.2.21-25), parece que Cristo corrige o termo usado pelo oponente quando este afirmou que Moisés “mandou” (entéllo) dar carta de divórcio (Mt.19.7), sendo que, na verdade, Moisés apenas a “permitiu” (epitrépo).

 

 

Disseram-lhe eles: Então, por que mandou Moisés dar-lhe carta de divórcio, e repudiá-la?

 

Respondeu-lhes Jesus: Por causa da dureza do vosso coração é que Moisés vos permitiu repudiar vossa mulher; entretanto, não foi assim desde o princípio. (Mt.19.7-8)

 

 

 

Conforme Jesus, o texto de Deuteronômio 24.1-4 não é uma ordenança ao divórcio, mas uma permissão à prática comum daqueles dias. Parece-nos, então, que Cristo interpretou os termos usados por Moisés (katav e natan no qal perfeito com vav consecutivo) como sequências temporais no futuro, não como ordenanças. No evangelho de Marcos, os oponentes de Jesus confirmam a interpretação de Cristo dizendo que “Moisés permitiu lavrar carta de divórcio e repudiar” (Mc.10.4). Portanto, o acréscimo legal dado por Moisés não pretendia servir de ordenança permanente para o povo de Deus, mas norteou a vida social da nação até a chegada daquele que capacitaria o povo a viver de acordo com a perfeita vontade de Deus.

 

Mas, por que não há diversas leis mosaicas sobre o casamento no sistema legal de Israel? Isso ocorre, porque Deus já havia deixado clara sua vontade sobre o casamento nos dias de Adão e Eva e esta lei vigoraria para todas as gerações: uma aliança matrimonial indissolúvel entre um homem e uma mulher para toda a vida. O acréscimo permitido por Moisés não invalidou a vontade revelada por Deus anteriormente, mas serviu de nota de rodapé temporária para um período em que as pessoas não eram capazes de viver a beleza de uma vida familiar santa e agradável a Deus.

 

Mais adiante, o profeta Malaquias relembrará a ordenança original do Senhor sobre o casamento, tornando evidente que a permissão dada por Moisés era circunstancial e temporária, explicitando, assim, o propósito do Senhor para a relação conjugal, desde o princípio:

 

 

 

13 Ainda fazeis isto: cobris o altar do SENHOR de lágrimas, de choro e de gemidos, de sorte que ele já não olha para a oferta, nem a aceita com prazer da vossa mão. 

 

14 E perguntais: Por quê? Porque o SENHOR foi testemunha da aliança entre ti e a mulher da tua mocidade, com a qual tu foste desleal, sendo ela a tua companheira e a mulher da tua aliança.

 

15 Não fez o SENHOR um, mesmo que havendo nele um pouco de espírito? E por que somente um? Ele buscava a descendência que prometera. Portanto, cuidai de vós mesmos, e ninguém seja infiel para com a mulher da sua mocidade.

 

16 Porque o SENHOR, Deus de Israel, diz que odeia o repúdio e também aquele que cobre de violência as suas vestes, diz o SENHOR dos Exércitos; portanto, cuidai de vós mesmos e não sejais infiéis.

 

17 Enfadais o SENHOR com vossas palavras; e ainda dizeis: Em que o enfadamos? Nisto, que pensais: Qualquer que faz o mal passa por bom aos olhos do SENHOR, e desses é que ele se agrada; ou: Onde está o Deus do juízo? (Ml.2.13-17)

 

 

 

 

 

Observe-se que Malaquias se dirige ao casamento como relação singular. O profeta não faz referência a mulheres ou homens, mas a aliança feita entre um homem e uma mulher, pois essa aliança fora revelada no Éden e tinha caráter permanente. O termo aliança carrega em si todos os ensinamentos revelados por meio das alianças divinas feitas com a criação, desde o Éden: solenidade, permanência, santidade e bênçãos. O divórcio, portanto, era mal aos olhos do Senhor, pois este “odeia o repúdio”, ou seja, o divórcio. O versículo 16 parece ser um trocadilho com Deuteronômio 24.3 que diz: “se este último odiar [a mulher] e escrever carta de divórcio”, então o Senhor diz: “eu odeio a carta de divórcio [que é dado para a mulher]”. Portanto, enquanto um cônjuge se aborrecia do outro e lhe dava carta de divórcio, Deus se aborrecia da prática de dar carta de divórcio ao cônjuge, pois sua vontade sempre foi a preservação da aliança matrimonial por toda a vida.

 

Malaquias fez parte de uma importante sequência de profetas que prepararam o povo de Israel para a chegada dos dias neotestamentários. O povo precisava ser purificado em diversos aspectos da vida pessoal e social, dentre estes o casamento, e esta purificação seria completada nos dias próximos ao ministério de Jesus quando João Batista, o último profeta veterotestamentário prepararia “o caminho do Senhor” (Is.40.3). Quando Cristo viesse, ele confirmaria a Lei do Senhor (Mt.5.17), trazendo um novo e importante elemento para o povo de Deus: a regeneração (Jo.3.5), ou seja, a capacidade de viver a nova vida que o Filho de Deus traria para todo aquele que nEle cresse (Gl.2.20).

 

 

O CASAMENTO EM CRISTO

 

Finalmente, o restaurador (Sl.14.7; At.3.21) de todas as coisas foi enviado da parte de Deus (Jo.6.29). Aqueles que haviam sido convidados ao arrependimento por João Batista, são ensinados a viver a nova vida do Reino de Deus por meio da pregação de Cristo. Jesus, então, oferece a perfeita interpretação dos textos bíblicos, ensinando a seu povo a perfeita vontade de Deus. O primeiro texto referente ao casamento aparece em Mateus 5.27-32:

 

 

27 Ouvistes que foi dito: Não adulterarás. 28 Eu, porém, vos digo: qualquer que olhar para uma mulher com intenção impura, no coração, já adulterou com ela. 29 Se o teu olho direito te faz tropeçar, arranca-o e lança-o de ti; pois te convém que se perca um dos teus membros, e não seja todo o teu corpo lançado no inferno. 30 E, se a tua mão direita te faz tropeçar, corta-a e lança-a de ti; pois te convém que se perca um dos teus membros, e não vá todo o teu corpo para o inferno. 31 Também foi dito: Aquele que repudiar sua mulher, dê-lhe carta de divórcio. 32 Eu, porém, vos digo: qualquer que repudiar sua mulher, exceto em caso de relações sexuais ilícitas, a expõe a tornar-se adúltera; e aquele que casar com a repudiada comete adultério. (Mt.5.27-32)

 

 

 

Jesus aplica o mandamento: “Não adulterarás” ao interior e exterior do homem. O mandamento, portanto, exige mais que uma conduta, exige uma disposição do coração, também, o que somente é possível, por meio do operar do Espírito Santo no coração do pecador (Ez.11.19-20). Jesus ensina ao povo que a aliança matrimonial exige fidelidade completa, portanto qualquer desvio do olhar (impuro) para alguém fora do casamento se constitui em pecado de adultério (interior), à semelhança daqueles que, cobiçando, praticam a relação sexual (exterior). Todavia, o adultério praticado no coração não se constitui em razão para que a aliança conjugal seja quebrada. Caso o adultério fosse razão para que o casamento fosse desfeito, então todas as vezes que alguém olhasse “com intenção impura no coração” estaria dando razão para o cônjuge solicitar a separação.

 

Em seguida, Jesus reafirma a impossibilidade de se desfazer o casamento. Moisés havia permitido a carta de divórcio e os anciãos tornaram a permissão num mandamento. Cristo, então, rejeita a tradição dos anciãos, repudiando completamente o divórcio. Surge no meio da fala de Jesus, uma cláusula parentética: “exceto em caso de relações sexuais ilícitas” (Mt.5.32). Essa expressão parece nos conduzir para a possibilidade de haver divórcio justificado. Todavia, apresento aqui a explicação de alguns estudiosos, nas palavras de John Piper, sobre o significado da expressão parentética:

 

 

 

A próxima pista de minha busca por uma explicação veio quando estudei sobre o uso de porneia em João 8.41, em que os líderes judeus indiretamente acusam Jesus de ser nascido de porneia. Em outras palavras, uma vez que eles não aceitavam o nascimento virginal, assumem que Maria havia cometido fornicação, e Jesus era resultado deste ato. Com base nesta pista, eu voltei para estudar o registro de Mateus do nascimento de Jesus em Mateus 1.18-20. Isto foi extremamente elucidador. Nesses versos, José e Maria são referidos como marido (aner) e esposa (gunaika). Ainda assim, eles são descritos como noivos somente. Isto provavelmente vem do fato de que as palavras para marido e esposa eram simplesmente homem e mulher, e do fato de que o noivado era um comprometimento muito mais significante do que é hoje. No verso 19, José resolve “divorciar-se” de Maria. A palavra para “deixá-la” é a mesma palavra de Mateus 5.32 e 19.9. Mas, mais importante que tudo, Mateus diz que José foi “justo” ao tomar a decisão de divorciar-se de Maria, presumivelmente por causa de porneia, fornicação.

 

Portanto, enquanto Mateus procede em construir a narrativa de seu Evangelho, ele encontra-se no capítulo 5 e depois no capítulo 19 precisando proibir todo casamento pós-divórcio (como ensinado por Jesus) e ainda permitir “divórcios” como aquele que José considerou como possibilidade, por pensar que sua noiva era culpada de fornicação (porneia). Assim, Mateus inclui a cláusula de exceção em particular para exonerar José, mas também no geral para apresentar que o tipo de “divórcio” que alguém talvez procure durante um noivado por causa de fornicação não está incluído na proibição absoluta de Jesus. (John Piper)

 

 

 

 

Essa interpretação coaduna-se bem com os versículos anteriores, em que o adultério no pensamento e coração não autorizam o divórcio, e com os Sinóticos (Mc.10.2-12; Lc.16.18) onde não aparece a cláusula parentética de Mateus. Portanto, o divórcio é repudiado por Jesus mesmo em caso de traição e o novo casamento é proibido mesmo em caso de adultério, pois o propósito original de Deus para o casamento se mantém firme desde sua origem até a volta de Jesus: uma aliança matrimonial indissolúvel, estabelecida para toda a vida.

 

Todavia, Jesus não ignora as dificuldades existentes dentro do casamento, tendo em vista a natureza pecadora do ser humano. Quando abordado pelos discípulos sobre a difícil condição de se estar obrigado a permanecer casado por toda a vida (Mt.19.10), Cristo diz que “nem todos são aptos para receber este conceito, mas apenas aqueles a quem é dado” (Mt.19.11). Convém-nos, então, perguntar: seria apenas esse o mandamento impossível de ser plenamente cumprido pelo homem sem Cristo? Israel havia experimentado a impossibilidade do homem, sem o Espírito Santo, obedecer aos mandamentos do Senhor, durante toda sua história. Mesmo tendo os mandamentos de Deus, a nação vivera aproximadamente 1400 anos pecando contra o Senhor, pois lhes faltava o “Espírito da Verdade” responsável por guiar o pecador a toda Verdade, habitando no homem e testificando de Cristo pela Escritura (Jo.16.13; 14.17; 15.26; Ez.36.26-27). Por isso, Cristo afirma: “Para os homens é impossível; contudo, não para Deus, porque para Deus tudo é possível” (Mc.10.27). Desta forma, somente aqueles que tem o Espírito de Deus estão aptos a viver toda a vontade do Senhor, incluindo os mandamentos relacionados ao casamento.

 

Portanto, a solução para o casamento é a conversão, pois por meio dela o pecador tem nova vida promovida pela Escritura e pelo Espírito de Deus (Jo.3.1-7; 4.23-24). Paulo aplicará esse conceito em suas cartas para as igrejas, pois “se alguém está em Cristo, é nova criatura; as coisas antigas já passaram; eis que se fizeram novas” (2Co.5.17). Por meio do Espírito do Senhor, o pecador recebe a capacidade para viver uma vida em plena conformidade com a santidade de Deus revelada na Escritura Sagrada, pois “o fruto do Espírito é: amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, domínio próprio” (Gl.5.22-23), de forma que “como recebestes Cristo Jesus, o Senhor, assim andai nele” (Cl.2.6).

 

A nova vida promovida pelo Espírito e Palavra de Deus proporciona ao ser humano a capacidade de resistir as tentações (Tg.4.7) e viver uma vida agradável a Cristo. Somente assim, o casamento dura a vida toda, apesar das lutas presentes no caminho. Com um coração novo, a conduta do homem e da mulher é adornada de pureza, para que expresse a beleza da santidade de Cristo (2Co.3.18; Ef.5.22-31), servindo de testemunho para cristãos e não cristãos (1Pe.3.1-7). Por meio deste novo viver a vida conjugal torna-se agradável e os cônjuges revestem-se de força para resistir às intempéries da vida. Desta forma, a resposta para os pecados cometidos no casamento não é o divórcio, mas a nova vida em Cristo e o poder do Espírito Santo que nos capacita a vencer toda “concupiscência da carne” (Gl.5.16). Essa é a resposta dada pelo Novo Testamento para a perplexidade dos discípulos frente a não permissão divina para o divórcio e novo casamento (Mt.19.10).

 

Reafirmando o caráter vitalício da aliança matrimonial, Paulo exorta o homem e a mulher a viverem a relação conjugal conforme Deus a instituiu, ou seja: a mulher deveria ser submissa ao marido e o marido deveria ser um bom líder, cuidando da esposa em amor (Cl.3.18-19). Essas afirmações de Paulo não eram novidades, pois Moisés já havia revelado o mandato social dado pelo Senhor no paraíso (Gn.2.18-25). Todavia, Paulo acrescenta uma importante informação: o casamento representa a relação entre Cristo e sua igreja (Ef.5.22-31), indissolúvel. Então, para que os cônjuges desfrutem de uma vida conjugal plena, é necessário que cada um assuma seu papel à semelhança de Cristo e da igreja. Ou seja, para que o homem saiba agir como verdadeiro esposo, ele precisará olhar para Cristo e copiar seu fiel, amável e zeloso tratamento para com a igreja (Ef.5.25-28). De forma semelhante, para a mulher agir de forma agradável a Deus e ao marido, ela deverá lembrar-se do papel da igreja que em tudo deve ser submissa, obediente e respeitosa para com Jesus, o Senhor da igreja (Ef.5.22-24). Por meio dessa analogia entre o relacionamento conjugal e o relacionamento entre Cristo e a igreja, a indissolubilidade do casamento é mais uma vez confirmada, pois mesmo quando “somos infiéis, ele permanece fiel, pois de maneira nenhuma pode negar-se a si mesmo” (2Tm.2.13).

 

Resta-nos analisar um texto de Paulo: 1 Coríntios 7.1-40. Esse capítulo inteiro trata sobre o casamento, mas é direcionado a várias questões particulares diferentes. Primeiramente, Paulo deixa claro que o casamento não é obrigatório e a depender do contexto em que vive o cristão (perseguição, por exemplo) é melhor estar solteiro do que casado (1Co.7.1,7-8). Mas, uma vez casados, os cônjuges devem observar os mandamentos do Senhor. O primeiro deles é a necessidade de cuidarem um do outro por meio da satisfação sexual, a fim de se protegerem contra as ameaças de um mundo de impurezas (1Co.7.2-6). O segundo mandamento aos casados é a preservação do casamento: o marido não deve se separar da mulher nem a esposa do homem (1Co.7.10).

 

Todavia, alguns cristãos, casados com pessoas ímpias estavam passando por lutas dentro do casamento enquanto outros estavam sendo abandonados. Diante disso, Paulo dá ordenanças adequadas a cada necessidade. Então, a separação aparece como opção possível, diante de desafios considerados intransponíveis. Porém, a separação não seria sinônima de divórcio, ou seja, mesmo separados os cônjuges ainda estariam ligados um ao outro, pois a distância não invalidaria a aliança matrimonial estabelecida para toda a vida (1Co.7.11). O mesmo seria válido para casamentos entre cristãos e não cristãos (1Co.7.12-13). Por essa razão, os cristãos deveriam pensar muito bem antes de se separarem, pois não poderiam unir-se a mais ninguém enquanto a morte não desfizesse a aliança um dia firmada entre eles (Rm.7.3).

 

Mas, caso o descrente, por seu coração endurecido, se mantivesse irredutível, o cristão não deveria se preocupar ou desesperar: Deus o havia chamado para a paz, pois mesmo ainda ligados (dédetai) por meio da aliança matrimonial indissolúvel (Rm.7.2), o cristão não estaria mais na condição de escravo (dedúlontai) de uma relação sofrível (1Co.7.15-16). E tendo Deus chamado o cristão para a paz, daria ao mesmo a capacidade para ser fiel por toda sua vida, mantendo-se firme na condição que lhe fora dada (1Co.7.17), suportando a condição de alguém vivendo sozinho, mas ao mesmo tempo ligado àquele com quem havia casado.

 

Em seguida, Paulo reafirma seu desejo de que o cristão viva uma vida dedicada exclusivamente para Deus (1Co.7.32-34), sem, contudo, proibir o casamento. Paulo tem diante de si três públicos distintos: os casados, os solteiros e os viúvos. Para cada grupo, há uma ordenança apropriada: 1) Os casados não deveriam procurar separar-se (1Co.7.27a); 2) Os solteiros não deveriam procurar o casamento como se fosse uma necessidade (1Co.7.27b,37); 3) Mas, se os solteiros não conseguissem se dominar, então deveriam se casar no Senhor (1Co.7.9,28,36); 4) E, de forma semelhante, aqueles que eram viúvos tanto poderiam manter-se livres (sozinhos) quanto poderiam casar, pois uma vez morto o cônjuge, estariam livres para casar outra vez (1Co.7.39-40). Portanto, tanto os solteiros quanto os viúvos podem casar, caso desejem, mas o apóstolo considera melhor que se mantenham livres. Quer solteiros (livres) ou casados (ligados), todos devem viver de acordo com a Palavra de Deus, de forma que os casados não podem divorciar-se nem casar outra vez, e os solteiros (incluindo as viúvas) só podem casar no Senhor (1Co.7.39).

 

Portanto, de acordo com o Novo Testamento, o mandamento original de Deus sempre esteve em vigor e, por meio de Jesus, o cristão recebe a capacitação para viver a vontade do Senhor. Essa capacidade de viver o relacionamento conjugal com inteireza de coração faz parte da restauração operada por Cristo no ser humano. São essas pessoas capacitadas por Deus que cumprem os mandamentos do Senhor, mesmo que muitas vezes falhem. São elas que herdarão a vida eterna, pois amaram mais a Deus do que a própria vontade (Mt.16.24-25) e, pelo poder do Espírito e da Palavra de Deus resistem às tentações do mundo (Gl.5.16). Se caírem em algum pecado, não ficam prostrados, pois Deus os ergue (Sl.37.24). E mesmo diante dos mais fortes desejos do coração, encontram no Espírito Santo o poder necessário para vencer as inclinações da carne, a fim de que se mostrem fiéis filhos de Deus (Fp.4.13).

 

 

A ETERNIDADE E O CASAMENTO

 

Na ocasião da volta de Cristo, o casamento terá cumprido todos os propósitos divinos, mencionados anteriormente: 1) Veicular o nascimento do Filho de Deus; 2) Promover auxílio para o bom desempenho das ordenanças dadas por Deus ao homem, de forma que cultivar e guardar o jardim fosse partilhado por sua companheira; 3) Formar um povo santo para Deus, constituído de famílias firmadas em aliança, a partir do fiel relacionamento conjugal entre o homem e sua mulher; 4) Proporcionar uma relação de comunhão entre seres humanos, a fim de que houvesse mútuo cuidado, edificação, carinho e auxílio em tudo; 5) Ser uma oficina para o exercício das virtudes divinas partilhadas pelo homem.

 

Na eternidade, o casamento será visto na relação da igreja com Cristo (Ef.5.32), pois não haverá mais relação conjugal no Reino de Deus (Mt.22.30). Naquele dia, haverá um grande povo santo que fora gerado no decorrer das gerações. Seus concidadãos são chamados de irmãos, pois são partes de uma mesma família chamada de “família de Deus” (Ef.2.19). A aliança dentro dessa família durará para sempre e será perfeita. Como uma grande família, todos partilharão do amor, bondade, paciência, benignidade, contentamento, mansidão, cuidado mútuo etc. Uma aliança estabelecida por Cristo regerá todo o povo de Deus, aliança que não poderá ser quebrada por nada nem ninguém, assim como o casamento ordenado pelo Senhor.

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