CRISTO, o último UNGIDO de Deus

November 4, 2017

 

“Amaste a justiça e odiaste a iniquidade; por isso Deus, o teu Deus, te ungiu Com óleo de alegria mais do que a teus companheiros.” (Hb.1.9)

 

Com o surgimento do movimento pentecostal, alguns termos tornaram-se comuns no meio evangélico. Dentre esses termos, encontra-se a palavra “ungido”, aplicada aos cristãos, em geral, mas, principalmente à figura do pastor ou líder dentro da igreja. Além disso, incorporaram ao termo a prática de “ungir com óleo” em diversas ocasiões, justificando-se tal prática com a leitura de alguns textos como Marcos 6.13, Lucas 7.46 e Tiago 5.14 etc. Com o passar do tempo, a palavra passou a ser usada como lei protetora do ministério pastoral, a fim de evitar que qualquer pessoa possa ir contra ensinos e práticas daqueles que querem ter todo poder centrado em si mesmos, rejeitando o ensino bíblico de que a autoridade pastoral está associada à fidelidade à Escritura Sagrada. Portanto, há uma grande necessidade de se compreender o significado e propósito da unção ensinada no Antigo e Novo Testamento.

 

Para entendermos bem o assunto, dissipando, assim, todas as dúvidas com respeito à unção com óleo, precisaremos compreender primeiro o propósito da unção no Antigo Testamento e sua relação com Cristo. O propósito da Escritura Sagrada é apontar para o Filho de Deus “a quem constituiu herdeiro de todas as coisas, pelo qual também fez o universo. Ele, que é o resplendor da glória e a expressão exata do seu Ser, sustentando todas as coisas pela palavra do seu poder, depois de ter feito a purificação dos pecados, assentou-se à direita da Majestade, nas alturas, tendo-se tornado tão superior aos anjos quanto herdou mais excelente nome do que eles.” (Hb.1.2-4). Os diversos autores do Novo Testamento nos conduzem sempre para Cristo, cumprimento da Palavra de Deus (Rm.11.36; Lc.24.25-27; Gl.3.16,19,22,24-29; 4.4; Jo.14.6; Rm.16.25-27; Ef.1.3-14; Cl.1.27; 2.2; 4.3-4 etc.). Portanto, uma das principais causas de diversas interpretações erradas da Palavra de Deus é a leitura da Escritura sem Cristo, de forma que o leitor procura outros alvos, quer o cristão quer a nação de Israel etc. para aplicar os textos bíblicos.

 

O termo ungir surge pela primeira vez em Gênesis 31.13: “Eu sou o Deus de Betel, onde ungiste uma coluna, onde me fizeste um voto; levanta-te agora, sai desta terra e volta para a terra de tua parentela”, uma referência a Gênesis 28.18: “Tendo-se levantado Jacó, cedo, de madrugada, tomou a pedra que havia posto por travesseiro e a erigiu em coluna, sobre cujo topo entornou azeite”. Observe-se que o significado de ungir é dado na junção entre os dois textos acima: ungir é entornar azeite. Também, deve-se observar que a prática parece não ser desconhecida de Jacó, uma espécie de batismo, pois, após ungir a coluna, Jacó deu nome à cidade (Gn.28.19).

 

Depois de Gênesis 31.13, o termo hebraico “mashar” (ungir) só aparecerá em Êxodo 28.41 em referência à consagração do sacerdote. A partir de então, o verbo ungir (“mashar”) é usado para consagrar os três ofícios de Israel: Sacerdote, Rei e Profeta, além das coisas sagradas (Ex.28.41; 29.2,7,36; 30.26,30; 40.9,10,13,15; Lv.6.20; 7.36; 8.10,11,12; 16.32; Nm.3.3; 7.1,10,84,88; 35.25; Jz.9.8,15; 1Sm.9.16; 10.1; 15.1,17; 16.3,12,13; 2Sm.1.21; 2.4,7; 3.39; 5.3,17; 12.7; 19.10; 1Rs.1.34,39,45; 5.1; 19.15,16; 2Rs.9.3,6,12; 11.12; 23.30; 1Cr.11.3; 14.8; 29.22; 2Cr.22.7; 23.11; Sl.45.7; 89.20; Is.61.1; Dn.9.24). Em Levítico, o termo “ungir” (“mashar”), ainda, aparece relacionado à aplicação de azeite como ingrediente de bolos que seriam ofertados ao Senhor (Lv.2.4; 7.12; Nm.6.15). Além de seu uso relacionado ao sagrado, há algumas poucas referências a aplicação do óleo de forma comum para consagração de objeto, no sentido de aplicar um líquido sobre algo ou como perfume (Is.21.5; Jr.22.14; Am.6.6).

 

Ainda outro termo hebraico é usado para se referir à ação de ungir: “suk” (Ex.30.32; Dt.28.40; Rt.3.3; 2Sm.12.20; 14.2; 2Cr.28.15; Ez.16.9; Dn.10.3; Mq.6.15). O profeta Isaías usa o verbo “suk” com o significado de “ir contra” (Is.9.11; 19.2), como se um povo fosse derramado sobre o outro por adversário. Diferente de “mashar”, o verbo “suk” é utilizado para referir-se a qualquer uso de óleo como bálsamo (Rt.3.3; 2Sm.12.20; 2Sm.14.2; Ez.16.9; Dn.10.3). Seu equivalente grego mais próximo é “aleifo” que, apesar de aparecer na Septuaginta para traduzir ambos os termos hebraicos (“mashar” e “suk”), aparece no Novo Testamento para se referir, somente, a bálsamos e curativos (Mt.6.17; Mc.16.1; Lc.7.38,46; Jo.11.2; 12.3). Mais adiante analisaremos o uso desse termo no Novo Testamento.

 

A importância e restrição do óleo sagrado, destinado a unção dos ofícios de Israel, é revelada por meio da ordenança de Êxodo 30.22-33:

 

Disse mais o SENHOR a Moisés:  23 Tu, pois, toma das mais excelentes especiarias: de mirra fluida quinhentos siclos, de cinamomo odoroso a metade, a saber, duzentos e cinqüenta siclos, e de cálamo aromático duzentos e cinqüenta siclos,  24 e de cássia quinhentos siclos, segundo o siclo do santuário, e de azeite de oliveira um him.  25 Disto farás o óleo sagrado para a unção (misherah), o perfume composto segundo a arte do perfumista; este será o óleo sagrado da unção (misherah).  26 Com ele ungirás (mashar) a tenda da congregação, e a arca do Testemunho,  27 e a mesa com todos os seus utensílios, e o candelabro com os seus utensílios, e o altar do incenso,  28 e o altar do holocausto com todos os utensílios, e a bacia com o seu suporte.  29 Assim consagrarás estas coisas, para que sejam santíssimas; tudo o que tocar nelas será santo.  30 Também ungirás (mashar) Arão e seus filhos e os consagrarás para que me oficiem como sacerdotes.  31 Dirás aos filhos de Israel: Este me será o óleo sagrado da unção (misherah) nas vossas gerações.  32 Não se ungirá (suk) com ele o corpo do homem que não seja sacerdote, nem fareis outro semelhante, da mesma composição; é santo e será santo para vós outros.  33 Qualquer que compuser óleo igual a este ou dele puser sobre um estranho será eliminado do seu povo.

 

Esse texto é de suma importância, pois além de atribuir a finalidade do santo óleo (Nm.35.25) feito pelos sacerdotes, também proíbe, permanentemente, que esse óleo seja usado para outra finalidade a não ser a unção das coisas sagradas. Posteriormente, o óleo será usado para consagrar profetas e reis: “Tomou Samuel o chifre do azeite e o ungiu no meio de seus irmãos; e, daquele dia em diante, o Espírito do SENHOR se apossou de Davi.” (1Sm.16.13) e “a Jeú, filho de Ninsi, ungirás rei sobre Israel e também Eliseu, filho de Safate, de Abel-Meolá, ungirás profeta em teu lugar” (1Rs.19.16). Mais adiante, antes da morte do rei Davi, o sumo sacerdote Zadoque, junto ao profeta Natã, ungiram Salomão (1Rs.1.34,39). O óleo usado pelo sumo sacerdote para ungir o filho de Davi foi o mesmo óleo de uso no tabernáculo, pois “Zadoque, o sacerdote, tomou do tabernáculo o chifre do azeite e ungiu a Salomão” (1Rs.1.39). Desta forma, o óleo sagrado era destinado aos ofícios sagrados de Israel: sacerdote, rei e profeta.

 

Devemos chamar a atenção para a proibição final do texto de Êxodo 30.22-33: “Qualquer que compuser óleo igual a este ou dele puser sobre um estranho será eliminado do seu povo” (Ex.30.33). Diante dessa ordenança, não é possível se imaginar que os judeus dos dias de Jesus tivessem quebrado o mandamento mosaico nem muito menos podemos entender que Cristo tivesse ferido a Escritura, pois seu propósito era cumpri-la, não revoga-la (Mt.5.17). Se qualquer um deles tivesse desobedecido ao mandamento, seria acusado de quebra da lei, ou seja, desobediência contra Deus. Portanto, a fabricação do santo óleo de forma particular e para fins diferentes do que preceitua a Escritura deve ser considerada fora de cogitação.

 

Dois termos gregos são usados para traduzir os verbos “suk” e “mashar” (ungir - hebraico): “aleifo” e “chrio” (ungir - grego). Este último termo é o equivalente mais próximo de “mashar”, utilizado para referir-se à consagração dos ofícios e coisas sagradas de Israel. No Novo Testamento, o verbo “chrio” aparece apenas 5 vezes (Lc.4.18; At.4.27; 10.38; 2Co.1.21; Hb.1.9) sempre se referindo a pessoa de Cristo. Em 2 Coríntios 1.21, “chrio” se refere a unção de Cristo partilhada por aqueles que nEle creem e dEle receberam “o penhor do Espírito” (2Co.1.22). Ou seja, Cristo tornou a igreja participante de sua vida, sendo Ele o ungido de Deus. Portanto, a igreja partilha da unção de Cristo por duas razões: sua identificação com a morte e ressurreição de Jesus e sua participação da habitação do Espírito (Rm.6.4; 1Co.3.16; 1Pe.2.5). Todavia, Jesus continua sendo o Cristo (o ungido). Essa unção não veio sobre a igreja por meio de derramamento de óleo, mas por meio de sua fé em Jesus, tornando o cristão um só corpo com Cristo. Por estarmos nEle, partilhamos da presença do Espírito Santo à semelhança de Jesus (Lc.4.1) e vivemos uma nova vida para a glória de Deus (Gl.2.20). Semelhante ideia encontra-se na primeira carta de João, onde o apóstolo diz que a igreja “tem unção da parte do Santo” (1Jo.2.20,27 – “chrisma”).

 

Do verbo “chrio” surgiu o adjetivo “christós” (posteriormente, substantivado) para identificar aquele que recebeu o óleo da unção: Sacerdote (Lv.4.5,16; 6.22; 21.10,12), Rei (1Sm.2.10,35; 12.3,5; 16.6; 24.6,10; 26.9,11,16,23; 2Sm.1.14,16; 19.21; 22.51; 23.1; 2Cr.6.42; 22.7; Sl.2.2; 18.50; 20.6; 28.8; 84.9; 89.38,51; 132.10,17; Is.45.1) e profeta (1Rs.19.16 – povo profético: Sl.105.15). Tendo chegado o Filho de Deus, o termo “Christós” passa a ser usado exclusivamente para se referir a Jesus como “o ungido” de Deus. A palavra “christós” é usada 529 vezes no Novo Testamento, quase 13 vezes o número de ocorrências no Antigo Testamento (41 vezes, apenas), mas em nenhuma das ocorrências ela se dirige para os sacerdotes nem para os reis nem mesmo para o profeta João Batista, pois aquele (Jesus) para quem os ofícios de Israel apontavam já havia chegado, de forma que os autores do Novo Testamento se referem somente a Jesus como “o ungido”, ou seja: Cristo. Nenhuma outra pessoa do Novo Testamento é chamada de “christós”, ou seja, de “ungido”, em todas as 529 vezes em que ocorre o termo “ungido”, e nem mesmo os apóstolos receberam esse título.

 

Qual o propósito do Senhor ter ordenado a Israel a prática da unção destinada especialmente à consagração dos ofícios: Sacerdote, Profeta e Rei? O objetivo era apontar para o status e papel de Jesus Cristo como Sumo Sacerdote que adentrou ao santo dos santos em nosso lugar para oferecer a si mesmo como oferta perfeita e única por nós, a fim de aplacar, definitivamente, a ira do Senhor contra seu povo (Hb.4.14; 7.26-28); como Profeta por quem Deus falou “nestes últimos dias”, revelando-nos o mistério outrora oculto nos dias do Antigo Testamento, para que a igreja conheça a perfeita vontade do Senhor (Hb.1.1-2; Cl.1.26-27); como Rei do Reino de Deus que governa nossos corações, sendo Senhor de tudo e todos (Sl.2; Jo.19.19-21).

 

Um texto profético, mencionado por Jesus, nos ajudará a entender o propósito da unção no Antigo Testamento: “O Espírito do SENHOR Deus está sobre mim, porque o SENHOR me ungiu para pregar boas-novas aos quebrantados, enviou-me a curar os quebrantados de coração, a proclamar libertação aos cativos e a pôr em liberdade os algemados” (Is.61.1//Lc.4.18). Isaías profetiza a chegada de alguém que seria ungido por Deus, ou seja, que seria cheio do Espírito Santo e operaria todas as maravilhas de Deus no meio de seu povo. Jesus aplicou a profecia a si mesmo em Lucas 4.18, portanto, conforme Cristo, a profecia de Isaías cumpriu-se nEle, ou seja, encerrou-se em Jesus, pois o propósito dela era apontar ao ministério de Cristo, cheio do Espírito de Deus. Isaías, portanto, não estava se referindo ao cristão, mas ao Messias, ou seja, ao Cristo profetizado e esperado por todas as páginas da Escritura Sagrada. Jesus é o ungido, cheio do Espírito de Deus, a quem se referiram os profetas. Sua vinda, então, cumpre as profecias e encerra a espera pelo ungido do Senhor.

 

Devemos observar, ainda, a forma como o livro de Apocalipse faz referência a Jesus como “o ungido” (o Cristo), mesmo estando à destra de Deus. Não há outro ungido em Apocalipse, pois sua unção não foi temporária com o fim de exercer uma função importante, mas escatológica, exclusiva e permanente (Ap.11.15). Jesus é o Cristo para sempre, aquele que possui toda a unção divina, pois carrega em si os três ofícios (profeta, sacerdote e rei) e cumpriu todos os sacrifícios e ofertas ao Senhor, sendo Ele mesmo, também, o lugar da adoração, pois nEle habita a plenitude de Deus e por Ele o pecador pode se achegar a Deus (Jo.14.6; Cl.2.9). Portanto, Jesus é “o Ungido” do Senhor:

 

sétimo anjo tocou a trombeta, e houve no céu grandes vozes, dizendo: O reino do mundo se tornou de nosso Senhor e do seu Cristo (do seu ungido), e ele reinará pelos séculos dos séculos (Ap.11.15).

Então, ouvi grande voz do céu, proclamando: Agora, veio a salvação, o poder, o reino do nosso Deus e a autoridade do seu Cristo (do seu ungido), pois foi expulso o acusador de nossos irmãos, o mesmo que os acusa de dia e de noite, diante do nosso Deus (Ap.12.10).

 

Portanto, a unção do Antigo Testamento cumpria papel tipológico-profético que apontava para Cristo. A unção figurava a escolha divina e o derramamento do Espírito sobre a pessoa, e ambos encontraram seu cumprimento e plenitude em Jesus, o Filho de Deus. Ele é o ungido de Deus e não há outro; nEle habita toda a plenitude de Deus e em mais nenhum outro; Ele é o cumprimento das profecias redentoras do Antigo Testamento e mais ninguém; Ele é o perfeito Sumo Sacerdote-Profeta-Rei e nunca mais Israel terá esses três ofícios em seu meio. Por isso, diz a Escritura que, no passado, “ministravam em figura e sombra das coisas celestiais” (Hb.8.5) e que as coisas passadas “são sombras das coisas futuras, mas o corpo é de Cristo” (Cl.2.17).

 

Uma vez que tenha ficado claro que somente Jesus é chamado de “ungido” no Novo Testamento (Cristo) e que apenas em relação a Ele o verbo “ungir” (“chrio”) é usado, devemos nos voltar para o aparecimento do outro termo “ungir” (“aleifo”) utilizado para a aplicação de bálsamos e curativos. O verbo “aleifo” aparece, apenas, em oito versículos no Novo Testamento (Mt.6.17; Mc.6.13; 16.1; Lc.7.38,46; Jo.11.2; 12.3; Tg.5.14). Das oito ocorrências, seis delas fazem referência clara a perfumes:

 

Tu, porém, quando jejuares, unge a cabeça e lava o rosto, com o fim de não parecer aos homens que jejuas, e sim ao teu Pai, em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará (Mt.6.17-18).

Passado o sábado, Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago, e Salomé, compraram aromas para irem embalsamá-lo [ungir – “aleifo”] (Mc.16.1).

E eis que uma mulher da cidade, pecadora, sabendo que ele estava à mesa na casa do fariseu, levou um vaso de alabastro com unguento; e, estando por detrás, aos seus pés, chorando, regava-os com suas lágrimas e os enxugava com os próprios cabelos; e beijava-lhe os pés e os ungia com o unguento (Lc.7.37-38).

Vês esta mulher? Entrei em tua casa, e não me deste água para os pés; esta, porém, regou os meus pés com lágrimas e os enxugou com os seus cabelos. Não me deste ósculo; ela, entretanto, desde que entrei não cessa de me beijar os pés. Não me ungiste a cabeça com óleo, mas esta, com bálsamo, ungiu os meus pés (Lc.7.44-46).

Esta Maria, cujo irmão Lázaro estava enfermo, era a mesma que ungiu com bálsamo o Senhor e lhe enxugou os pés com os seus cabelos (Jo.11.2).

Então, Maria, tomando uma libra de bálsamo de nardo puro, mui precioso, ungiu os pés de Jesus e os enxugou com os seus cabelos; e encheu-se toda a casa com o perfume do balsamo (Jo.12.3).

 

Restam-nos, apenas, dois versículos para análise, a fim de que compreendamos o uso do termo “ungir” (aleifo) aplicado sobre enfermos. O primeiro texto está inserido na primeira comissão dada aos apóstolos que deveriam ir, de dois a dois, às casas, pregando, expulsando demônios e curando: “Então, saindo eles, pregavam ao povo que se arrependesse; expeliam muitos demônios e curavam numerosos enfermos, ungindo-os com óleo” (Mc.6.12-13). Devemos lembrar que a palavra ungir significa: entornar, ou aplicar, óleo sobre algo ou alguém (Gn.28.18//31.13). Portanto, Marcos nos diz que os apóstolos despejavam, ou aplicavam, óleo sobre doentes. Mas, por que eles faziam isso? A oração não seria suficiente? O óleo teria poderes mágicos? Qual seria o simbolismo do óleo nesses casos? Por acaso o Espírito de Deus seria derramado sobre a ferida da pessoa, já que a verdadeira unção representava a presença do Espírito do Senhor?

 

Para entendermos melhor esse texto, o colocaremos em paralelo com outro texto em que o óleo (“elaion”) é usado em circunstância semelhante, ou seja, o óleo é aplicado sobre uma pessoa ferida: “Certo samaritano, que seguia o seu caminho, passou-lhe perto e, vendo-o, compadeceu-se dele. E, chegando-se, pensou-lhe os ferimentos, aplicando-lhes óleo e vinho; e, colocando-o sobre o seu próprio animal, levou-o para uma hospedaria e tratou dele” (Lc.10.33-34). A palavra aplicar (“epichéo”) é a mesma utilizada pela Septuaginta em Gênesis 28.18: “Então, levantou-se Jacó pela manhã, de madrugada, e tomou a pedra que tinha posto por sua cabeceira, e a pôs por coluna, e derramou azeite em cima dela”. Portanto, tanto Jacó derramou (“epichéo”) óleo sobre a coluna, ungindo-a (Gn.31.13) quanto o Samaritano aplicou (“epichéo”) óleo e vinho sobre o ferimento do judeu ferido. Desta forma, percebemos que “epichéo” é outro termo usado para se referir a mesma prática: derramar, despejar, aplicar (“epichéo”) óleo sobre algo.

 

O importante nesse caso não é o termo óleo (“elaion”), mas seu uso em casos de ferimentos. O Samaritano da parábola de Jesus aplicou óleo e vinho para higienizar e remediar os ferimentos do judeu que havia sido assaltado. Devemos lembrar nesse momento que os remédios antigos possuíam o óleo como veículo em que se misturavam as plantas medicinais. Além disso, sabemos que o álcool (vinho) possui propriedades antissépticas, por isso usado para higienizar os ferimentos. Portanto, o que o Samaritano fez foi cuidar das feridas daquele homem aplicando remédios que tinha em suas mãos. E como esse texto nos ajuda a entender Marcos 6.13? A questão é que o contexto é similar. Os apóstolos aplicavam óleo sobre os enfermos e oravam pelos doentes e estes eram curados, não por causa do óleo, mas da oração. O Novo Testamento não fornece nenhum indício de que os apóstolos tivessem algum tipo de óleo milagroso nem existe qualquer ensino a fabricação de tal coisa. Todavia, muitas são as evidências de que a aplicação de óleo era comum tanto como perfume quanto como curativo.

 

Diante de todo o exposto acima, devemos compreender que o mesmo óleo é aplicado no texto de Tiago 5.14 como curativo de feridas:

 

“Está alguém entre vós doente? Chame os presbíteros da igreja, e estes façam oração sobre ele, ungindo-o com óleo, em nome do Senhor. E a oração da fé salvará o enfermo, e o Senhor o levantará; e, se houver cometido pecados, ser-lhe-ão perdoados. Confessai, pois, os vossos pecados uns aos outros e orai uns pelos outros, para serdes curados. Muito pode, por sua eficácia, a súplica do justo” (Tg.5.14-16).

 

Como dissemos anteriormente, o termo “ungir” em Tiago 5.14 é “aleifo”, o mesmo verbo usado nos sete versículos mencionados anteriormente. Observe-se que o contexto é o mesmo: aplicação de óleo em pessoas doentes. Todavia, em Tiago fica mais evidente que o foco não é a aplicação do óleo e que a causa da atuação divina sobre a pessoa doente não é a unção, mas a oração. Os presbíteros, portanto, deveriam confiar que Deus curaria o enfermo sem, contudo, tentarem a Deus, negligenciando a aplicação do remédio (Mt.4.7). Paulo ensina algo semelhante a Timóteo, dizendo: “Não continues a beber somente água; usa um pouco de vinho, por causa do teu estômago e das tuas frequentes enfermidades” (1Tm.5.23). Interessante observar que Paulo não ordena que Timóteo apenas ore nem muito menos diz ao jovem pastor que peça aos presbíteros para ungi-lo com óleo. Paulo ordena que Timóteo tome providências medicamentosas, enquanto mantinha uma vida de oração (1Tm.2.8).

 

Durante seu ministério terreno, Jesus aplicou saliva, diversas vezes, em doentes (Mc.7.33; 8.23; Jo.9.6 – com propósito específico), contudo não ungiu nem mesmo uma pessoa com óleo, para que ela fosse curada. Sua oração era suficiente para que o morto ressuscitasse, o endemoniado fosse liberto, o doente fosse curado (Mc.6.5; 9.29). Isso ocorreu porque Jesus é o ungido de Deus, aquele que estava “cheio do Espírito Santo” (Lc.4.1), enviado “para proclamar libertação aos cativos e restauração da vista aos cegos, para pôr em liberdade os oprimidos,  e apregoar o ano aceitável do Senhor” (Lc.4.18-19). Portanto, estando em Cristo, a igreja partilha de sua unção, ou seja, do enchimento do Espírito Santo. Desta forma, não precisamos mais de objetos como óleo para representar a presença do Espírito de Deus, pois aquele para quem o óleo apontava já veio e seu Espírito, “penhor da nossa herança”, já nos foi dado para sempre (Ef.1.14).

 

A unção teve seu papel no Antigo Testamento e cumpriu seu propósito apontando para Cristo. Depois de Jesus, não há mais ungidos especiais (a não ser a igreja que está em Cristo), pois Ele é o único ungido do Senhor. Qualquer outro que apareça se dizendo ungido de Deus deve ser compreendido como um psedocristo, ou seja, um falso cristo, uma identidade assumida pelo anticristo que deseja ser semelhante a Cristo (Mt.24.23-24; Mc.13.21-22). Portanto, usar o termo ungido para o pastor, ou para outra pessoa qualquer, como referência a alguém escolhido por Deus para o desempenho de uma função especial está completamente errado; e, ainda, coloca tal pessoa em oposição a Jesus que é o único ungido de Deus (Cristo).

 

Por que, então, muitos querem ser chamados de ungidos, hoje? Em grande medida, há ignorância no meio do povo de Deus que não estuda a Palavra do Senhor. Todavia, também há vaidade e soberba, pois muitos cristãos querem ter o “status de espirituais”, pecando contra o Senhor ao usurparem para si a condição que pertence somente a Jesus: ser o ungido de Deus (Cristo). Além disso, muitos anticristos têm surgido em nosso meio, querendo ser semelhante a Cristo, por isso se dizem ungidos especiais de Deus com poderes miraculosos. Devemos lembrar que Jesus advertiu quanto ao surgimento de tais pessoas: “surgirão falsos cristos e falsos profetas operando grandes sinais e prodígios para enganar, se possível, os próprios eleitos” (Mt.24.24). Os falsos cristos estiveram presentes no primeiro século e estão presentes em nossa geração, também. Em vista disso, a igreja deve estar atenta para não se deixar enganar. E para isso, basta que o cristão lembre que o único ungido do Senhor é Jesus chamado de Cristo.

 

Portanto, a unção com óleo não deve ser mais praticada pela igreja, pois essa prática tinha o propósito de apontar para Jesus, nosso Sacerdote-Profeta-Rei. Seu uso, então, torna-se estranho ao Evangelho, pois Cristo basta para sua igreja e seu Espírito é suficiente para enchê-la. Além disso, não precisamos usar óleo ou vinho para curar pessoas feridas, quando já temos muitos outros remédios mais aprimorados. E quando usarmos qualquer remédio, devemos orar ao Senhor confiando que de Deus vem a cura graciosa sobre o enfermo, porque tudo depende dEle, e somente dEle. Em vista disso, em vez de buscar “muletas espirituais” que desviam o olhar de Cristo, “enchei-vos do Espírito” por meio da leitura da Palavra de Deus e perseverança na oração (Ef.5.18-20), pois o ungido do Senhor já veio e está com sua igreja.

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