Escravos das emoções

May 10, 2018

 

“Amarás, pois, o SENHOR, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de toda a tua força. Estas palavras que, hoje, te ordeno estarão no teu coração” (Dt.6.5-6)

 

Entre 1591 e 1595, Shakespeare escreveu o que se tornou, provavelmente, o romance mais conhecido no mundo: Romeu e Julieta. Nesse romance trágico, Romeu e Julieta vivem um amor proibido por causa de brigas entre as famílias. Sem que os pais de Julieta soubessem de seu relacionamento com Romeu, decidem casá-la em Paris, mas o frei que faria a cerimônia arma um plano para ajudar Romeu e Julieta a ficarem juntos. Julieta deveria beber uma poção que faria com que ela parecesse morta, a fim de Romeu resgatá-la no cemitério. Todavia, Romeu é avisado da morte de sua amada antes do frei contar-lhe o plano. Por essa razão, o jovem toma uma poção venenosa e morre ao lado de Julieta. Após acordar, Julieta encontra seu amado morto e, tomando seu punhal, se mata ao lado dele. Eles haviam entregue o coração um para o outro, por isso não suportaram a ideia de viverem sem a pessoa que tanto amavam.

 

O sentimento entre Romeu e Julieta seria amor ou escravidão emocional? Não seria possível que eles vivessem felizes mesmo diante da perda de alguém que amavam? Seria certo dizer que dependemos de alguém para viver? As questões levantadas em torno desse romance trágico devem chamar nossa atenção para a atual condição emocional em que vive a sociedade tão dependente das paixões. Por que os homens não conseguem mais lidar com as perdas da vida? Cônjuges entram em colapso por causa de crises no casamento. Pais perdem o desejo de viver após a morte de filhos. Jovens casais dizem não conseguir mais ficar sem o outro. E, consequentemente, consultórios de psicólogos estão cheios (e não secam), sem saber qual o real problema do homem nem muito menos sua solução.

 

O estado de espírito das pessoas tem dependido completamente das circunstâncias, razão para multidões estarem infelizes e “depressivas”; emocionalmente doentes. A felicidade é procurada no dinheiro, no prazer, no lazer e nos relacionamentos, tornando-se uma mera satisfação tão passageira quanto os momentos da vida. Então, a indústria do lazer investe pesado, a fim de proporcionar momentos agradáveis para pessoas infelizes, pois o único meio de alegrá-las é oferecendo alguma distração momentânea; grupos religiosos que se dizem cristãos promovem diversas programações atraentes para motivar pessoas vazias, sem qualquer alegria em Cristo; e, indústrias farmacêuticas têm lucros elevados com a venda de remédios que escravizam seus dependentes e escondem o verdadeiro problema da alma humana: amor mal direcionado.

 

Um quadro irônico do filme “Meu malvado favorito 2” retrata bem o que estamos dizendo: Gru se apaixona pela colega de trabalho Lucy Wilde. Na manhã seguinte, ele acorda animado, brincalhão, cantarolando e cumprimentando todas as pessoas na rua, em seu caminho até chegar ao trabalho. Lá, Gru recebe a notícia de que Lucy será transferida para a Austrália e que, portanto, não poderia vê-la, mais. Então, ele volta para casa cabisbaixo, tratando mal todos à sua frente, como se a vida não tivesse mais sentido. Onde estava a causa da aparente felicidade dele? A alegria de Gru era circunstancial e dependia completamente daquela para quem ele havia entregue seu coração: Lucy. Por isso, cedo, Gru viu as implicações de amar demasiadamente alguém, colocando a esperança da própria felicidade sobre essa pessoa, pois “onde está o teu tesouro, aí estará também o teu coração” (Mt.6.21).

 

O amor demasiado entre namorados, cônjuges e familiares tem sido fonte de muitas angústias, tendo em vista a instabilidade natural da vida humana marcada por defeitos e finitude. Não é incomum ouvirmos pessoas dizerem para alguém: “Você é minha razão de viver!” “Amo você mais que tudo!” “Meus filhos são minha joia mais preciosa!” “Por você eu faço qualquer coisa!” Tudo isso parece muito bonito, afinal o casal deve se amar e o bem mais precioso (dentre as bênçãos divinas) de uma pessoa é sua família (Pv.19.14). No entanto, essas pessoas realmente não sabem o que estão dizendo nem muito menos as implicações daquilo que estão falando, mesmo que estejam dizendo a verdade, pois realmente tornaram-se bastante dependentes de outra pessoa. Todavia, será que isso é realmente bíblico? Será que devemos dedicar todo nosso amor às pessoas, mesmo que seja um familiar? Será que esse é, realmente, o amor que Deus nos ordenou?

 

NÃO! Definitivamente Deus não nos ensinou a amarmos as pessoas, mesmo familiares, com todo nosso amor. Os três grandes mandamentos sobre o amor, sabendo que deles “dependem toda a Lei e os Profetas” (Mt.22.40), ordenam que somente Deus seja amado “de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento” (Mt.22.37), que o próximo seja amado do mesmo modo que cada pessoa se ama (Mt.22.39) e que os cristãos devem amar uns aos outros como Cristo nos amou (Jo.13.34-35). Portanto, não há qualquer mandamento que faça alusão a um amor demasiado direcionado para pessoas ou coisas, afinal mesmo Jesus, que morreu numa cruz para nos salvar mostrando seu grande amor para conosco (Rm.5.8), não nos amou demasiadamente, pois antes de Cristo nos amar, Ele amou o Pai, e acima de seu amor para conosco, estava o amor dEle para com Deus. Por isso, Jesus não levará todas as pessoas para o novo céu e nova terra (Ap.21.1-7), mas somente aqueles que o Pai lhe entregar (Jo.6.37).

 

O primeiro problema em amarmos as pessoas “de todo o coração” é que esse amor deve ser destinado somente para Deus, e não pode ser dividido com mais ninguém, pois “o SENHOR, nosso Deus, é o único SENHOR” (Dt.6.4). Além disso, Jesus disse que “ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de aborrecer-se de um e amar ao outro, ou se devotará a um e desprezará ao outro” (Mt.6.24). Portanto, ao entregar o coração para alguém, o homem está deixando de amar a Deus “de todo coração”, ferindo assim o grande mandamento da Lei (Dt.6.5). Deus é o Criador de tudo e todos, e tem o direito de exigir que toda sua criação o ame de “de todo o coração”, pois, para isso, foi criada. Então, desviar esse amor para outro ser é roubar do Senhor aquilo que lhe é de direito.

 

Além de ser pecado, o amor “de todo coração” direcionado para homens ou mulheres traz sérias consequências para a mente. Devemos lembrar que tudo nesse mundo se acaba: as coisas se estragam (Mt.6.19), as pessoas cometem erros (Rm.3.10-18) e todos morrem um dia (Gn.3.19). Portanto, colocar o coração sobre coisas ou pessoas, falhas e finitas, é semelhante a construir uma casa sobre a areia: quando a forte tempestade vier derrubará tudo, deixando o coração desabrigado, sem um lugar firme e seguro para repousar. Consequentemente, ao perderem aquilo que tanto amavam, as pessoas perdem, também, o prazer de viver, pois estavam fortemente presas (dependentes) ao relacionamento. Essa é uma das principais razões do elevado número de pessoas emocionalmente doentes, em nossos dias. Afinal, somente Deus é perfeito, imutável e eterno, uma firme Rocha onde podemos repousar o coração.

 

As gerações estão cada vez mais emotivas. O pós-modernismo misturou o racionalismo renascentista/iluminista com o sentimentalismo do romantismo neoplatônico. A mistura resultou numa geração confusa que se entrega às paixões enquanto acredita que a ciência tem resposta para todas as coisas da vida. Dessa forma, as pessoas buscam fortes emoções, amando demasiadamente outras pessoas e coisas, mas negam que seus problemas possam ser resolvidos pelo Criador, pois se orgulham demais nas faculdades mentais do ser humano; “inculcando-se por sábios, tornaram-se loucos” (Rm.1.22). O resultado dessa mutação é a depressão em larga escala, pois o homem está completamente perdido em seus sentimentos e pensamentos; totalmente dependente das relações humanas para preencher o vazio do coração sem Cristo.

 

Ao contrário do que os “cientistas” pensam, a cura para os problemas emocionais do ser humano foi dada há, aproximadamente, 3400 anos atrás, quando Moisés escreveu a revelação de Deus, dizendo: “Amarás, pois, o SENHOR, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de toda a tua força. Estas palavras que, hoje, te ordeno estarão no teu coração” (Dt.6.5-6). O homem sente a necessidade de amar e ser amado; ele sente a necessidade de devotar todo seu amor para alguém, tornando esse alguém o propósito de sua vida. Então, não conhecendo a Deus, o homem procura outro ser para amar, sem se aperceber que esse alguém não é capaz de fazê-lo verdadeiramente feliz. Por isso, ao perder aquele que era alvo de todo seu amor (cônjuge, filhos, pais ou outra pessoa), o homem perde, também, o propósito de sua vida, experimentando o vazio do coração, sentindo-se profundamente infeliz.

 

Essas pessoas precisam ser libertas da escravidão emocional em que se encontram. Elas não conseguem se libertar daquilo que as aprisionam e, nessa dependência servil e doentia, vivem infelizes sem propósito para existir. Elas precisam ser direcionadas para Cristo, “pois, se o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres” (Jo.8.36). Somente Jesus pode libertar esses pobres corações dependentes, para que nunca mais sofram por causa de perdas da vida; somente Cristo pode dar-lhes capacidade para amarem ao único que é poderoso para fazê-las plenamente felizes sem que jamais mude, falhe ou morra: Deus, o Criador e Senhor de tudo. Apenas em Cristo, as pessoas conseguirão viver plenamente felizes “em toda e qualquer situação” da vida (Fp.4.11).

 

Portanto, a cura da sociedade está na pregação da Palavra de Deus e na operação do Espírito Santo, não em programações atraentes e momentâneas que massageiam o ego do homem por algum tempo e logo passam, deixando-o vazio e infeliz. Amar a Deus de todo o coração é a solução para as mais diversas angústias da vida humana, pois esse amor é inabalável, eterno e pleno. Corações entregues completamente (e unicamente) a Deus são fortalecidos pelo Senhor, a fim de suportarem todas as intempéries da vida. Por meio desse amor, o homem encontra causa e propósito para sua vida, pois tem no Criador sua origem e o alvo de todos os seus esforços. Através do verdadeiro relacionamento com Deus, por intermédio de Cristo, o homem recebe todo amor que precisa, na medida certa e da forma correta, e tem o prazer de devotar todo seu amor para aquele que é digno de recebê-lo, sabendo que jamais será abandonado, frustrado, trocado ou abalado.

 

Deus nos fez para si mesmo, por isso sentimos tanta necessidade de devotar todo nosso amor para alguém. Portanto, entregue seu coração para o único ser que jamais lhe deixará na mão, pois é fiel e eterno. Somente assim, você deixará de ser escravo(a) de emoções e será capaz de suportar as muitas perdas da vida. Isso não significa deixar de amar pessoas: cônjuges, filhos, parentes e amigos. Todavia, significa que seu coração não se abalará mais quando os perder por alguma razão, pois seu coração estará bem firmado sobre a Rocha que é Cristo Jesus; sua esperança estará bem guardada nas promessas do Senhor; e, sua felicidade emanará da certeza do amor que o Senhor tem por você, demonstrado na cruz do Calvário (Rm.5.8).

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