O que é ser cristão?

May 22, 2018

 

“Em Antioquia, foram os discípulos, pela primeira vez, chamados cristãos” (At.11.26)

 

O que é ser cristão? Há tantas pessoas se dizendo cristãs em nossos dias que precisamos definir bem o termo, a fim de peneirar todos os grupos, extraindo apenas aqueles que realmente se enquadram no conceito bíblico de cristianismo, enquanto motivamos as pessoas que realmente querem ter uma vida cristã autêntica a se adequarem à Palavra de Deus, honrando ao Senhor por meio de suas vidas. Ou seja, a melhor forma de glorificar o Senhor é vivendo uma genuína vida cristã, nem mais nem menos, pois tanto aponta para a graça divina que justifica o pecador por meio de Cristo quanto testemunha a graça divina que santifica o pecador por intermédio da Palavra e Espírito de Deus.

 

Diante da pergunta: “o que é ser cristão?” provavelmente a maioria responderá: “Ser cristão é crer em Cristo.” Mas, essa resposta estaria completa? Parece-nos que definir o cristão como aquele que crê em Cristo não é suficiente, pois as mais diversas seitas do cristianismo: Espiritismo, Testemunhas de Jeová, Mormonismo, Arianismo, Seitas adeptas da teologia da prosperidade etc. também acreditam em Jesus e até pregam algo sobre Ele. Esses grupos ensinam um evangelho diferente (enganoso, deturpado) daquele que fora pregado pelos apóstolos (2Co.11.3-4; Gl.1.6-9), mas se dizem cristãos por acreditarem em alguma coisa sobre Cristo. Além dessas seitas, há milhões de pessoas que se dizem cristãs (anônimas), mas não tem compromisso nem frutos que testifiquem a presença da nova vida que Jesus dá para todo aquele que verdadeiramente se torna um cristão.

 

Outro problema é a multiplicação de igrejas com líderes leigos que reduzem o Evangelho a dizer: “Jesus te ama!” Boa parte das pessoas que fazem parte dessas “igrejas” crê em Cristo sem nem mesmo saber quais as implicações disso. Elas acreditam que Jesus é bom, mas não entendem a obra realizada por Cristo na cruz do Calvário; elas aprendem que Jesus salva, mas nem mesmo sabem de que precisam ser salvas; elas falam em nova vida, mas a reduzem a participar das atividades de uma “igreja local”. Entendem-se por cristãs, mas desconhecem os elementos mais fundamentais da obra redentora, tais como a justificação realizada por Jesus e imputada pelo Espírito Santo na vida daqueles que creem. Consideram-se cristãs, mas não compreendem a “ordem da salvação” apresentada por Paulo à igreja de Roma: “aos que predestinou, a esses também chamou; e aos que chamou, a esses também justificou; e aos que justificou, a esses também glorificou” (Rm.8.30). E, de modo semelhante ao Catolicismo Romano, essas pessoas sentem-se seguras e salvas por participarem ativamente da vida eclesiástica de uma “comunidade local” marcada, comumente, por programações atraentes. Essas pessoas são realmente cristãs? Por isso, é realmente importante respondermos à pergunta: O que é ser cristão?

 

Mesmo nos dias da igreja primitiva, ser cristão não era “apenas crer em Cristo”, pois tanto Jesus disse que “nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! entrará no Reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus” (Mt.7.21) quando os apóstolos advertiram com respeito a “alguns que vos perturbam e querem perverter o evangelho de Cristo” (Gl.1.7), ou seja, admoestaram as igrejas a terem cuidado com os falsos profetas que pregavam um falso evangelho (2Co.11.13; Gl.2.4; 2Pe.2.1; 1Jo.4.1-6). À medida que a Escritura do Novo Testamento era dada para a igreja, a fé cristã alicerçava-se em fundamentos mais precisos (Ef.2.20), revelando o ser de Deus e sua obra redentora externa e interna ao pecador. Então, os verdadeiros cristãos deveriam crer e defender a Verdade recebida, pois a igreja foi posta por “coluna e baluarte da Verdade” (1Tm.3.15).

 

Portanto, dizer que ser cristão é simplesmente crer em Cristo não é suficiente. O verdadeiro cristão é identificado tanto pela crença no genuíno Evangelho do Senhor Jesus (Jo.8.32; Jd.3) quanto por uma nova vida marcada por frutos de justiça (Gl.2.20; 5.22-23). Por essa razão, o Novo Testamento exorta à igreja que preserve com fidelidade a sã doutrina e a prática da santidade, sabendo que “estreita é a porta, e apertado, o caminho que conduz para a vida, e são poucos os que acertam com ela” (Mt.7.14). E, por ser estreita a porta não entrarão muitos nem quaisquer um; por ser apertado o caminho não pode ser percorrido de qualquer jeito, antes é necessário andar fiel e humildemente com Cristo.

 

Quando Paulo fala da unicidade da doutrina do Evangelho, em que “há somente um corpo e um Espírito [...] um só Senhor, uma só fé, um só batismo” (Ef.4.4-6), ele exorta à igreja que seja cuidadosa com a unidade do corpo e, também, rejeita completamente todos os pseudo-evangelhos de seus dias. Por outro lado, Tiago observou que o cristão não é aquele que se diz crente, mas que se mostra crente por meio de sua vida, afinal “meus irmãos, qual é o proveito, se alguém disser que tem fé, mas não tiver obras? Pode, acaso, semelhante fé salvá-lo?” (Tg.2.14). Assim como Paulo observou que nem todos que se diziam cristãos criam no genuíno Evangelho de Cristo, também Tiago percebeu que algumas pessoas que se diziam cristãs não tinham uma vida coerente com a santidade do Reino de Cristo.

 

Mas, o que é ser cristão? Ser cristão é andar com Cristo! Aquele que anda com Jesus não somente crê que Ele existe, já que “até os demônios creem e tremem” (Tg.2.19), mas, também, tem disposição mental para compreender a história redentora revelada por Sua Santa Palavra; não somente fala algo sobre Cristo, mas, também, tem alegria em estar ao lado dEle (Jo.14.3) em todo tempo por meio de uma vida de oração e meditação na Escritura Sagrada; não somente diz ser cristão, mas, também, se esforça para obedecer seus mandamentos com satisfação, pois quer viver uma vida para a glória do Senhor (1Pe.1.16); não somente vai para uma igreja local, mas, também, tem um coração quebrantado e humilde para se arrepender de todos os seus pecados, desejoso por ser transformado à imagem do Senhor Jesus (2Co.3.18). Portanto, ser cristão é desfrutar da nova vida com Cristo, conforme disse Paulo: “já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim; e esse viver que, agora, tenho na carne, vivo pela fé no Filho de Deus, que me amou e a si mesmo se entregou por mim” (Gl.2.20).

 

Para começar a caminhada com Cristo é necessário ter a correta compreensão de quem Cristo é e o que Ele realizou por nós. Para muitos Jesus é um mero “mártir da paz” ou apenas um grande homem que deu o maior exemplo de amor que o mundo já viu. Desse modo, muitas pessoas estão andando ao lado de alguém idealizado pela própria imaginação sem se aperceberem que esse alguém não é o Filho Unigênito de Deus que morreu numa cruz para livrar-nos da ira divina. Esse fenômeno é semelhante a uma criança que encontra alguém com vestes parecidas com as roupas de seu pai e aproxima-se dessa pessoa pensando estar andando com o pai, até que o próprio se achegue para ela e lhe revele quem verdadeiramente ele é. Por mais tempo que a criança ande ao lado do pseudo-pai, estará andando lado a lado com um estranho.

 

Devemos lembrar, ainda, que a redenção tem um caráter jurídico que exige a correta compreensão de todos os elementos presentes: 1) Deus é o santo e justo juiz que executará seus retos juízos sobre todos os culpados (Gn.18.25); 2) o ser humano é o réu que quebrou todos os preceitos da Lei divina (Zc.3.1-3) e é incapaz de pagar a dívida de seu pecado (Na.1.6; Rm.3.10-18); 3) Satanás era (vencido pela cruz) o advogado de acusação interessado na condenação do homem (Ap.12.10); 4) Jesus é o advogado de defesa que se dispõe, graciosamente, a apresentar o pagamento da dívida de todo aquele que se achegar verdadeiramente arrependido (1Jo.2.1). Há ainda as testemunhas (Hb.12.1) que assistem tudo o que acontece na história redentora (1Co.4.9). Para receber o gracioso benefício é necessário compreender os termos do cancelamento do “escrito de dívida” (Cl.2.14) que envolvem: 1) o operar regenerador do Espírito Santo; 2) a justificação alcançada por Cristo na cruz do Calvário por meio de seu precioso sangue; 3) o verdadeiro arrependimento acompanhado com uma sincera mudança de vida operados pelo Espírito de Deus.

 

Portanto, receber a salvação envolve entendimento, razão pela qual Jesus disse aos discípulos: “conhecereis a Verdade, e a Verdade vos libertará” (Jo.8.32). Sem entendimento, o pecador não saberá o real perigo que corre: a ira divina vindoura (1Ts.1.10); sem entendimento, o pecador não admite sua profunda miséria: a natureza pecadora completamente corrompida (Rm.3.10-18); sem entendimento, o pecador não reconhece sua plena necessidade de Cristo, o justificador, o único que poderia pagar a dívida tanto do pecado original de Adão e Eva quanto dos pecados de todo aquele que nEle crê (Rm.5). sem entendimento, o pecador não vive de forma agradável a Deus, enganando a si mesmo, pois ignora que sem a santificação “ninguém verá o Senhor” (Hb.12.14). Sem a correta compreensão do plano redentor, o homem torna-se um mero religioso quer legalista quer libertino.

 

O cristão anda com Jesus como um discípulo muito amado, comprado e lavado pelo sangue do Cordeiro. O discípulo tem como objetivo ser semelhante a seu mestre, razão pela qual deve andar com ele em todo tempo, observando seu modo de agir, falar, resolver questões, lidar com as pessoas etc. Por isso, Jesus também é nosso modelo perfeito, como disse Paulo: “sede meus imitadores, como também eu sou de Cristo” (1 Co.11.1), haja vista que Ele nos deu gracioso poder para vencer a natureza pecadora (Gl.5.16), a fim de que possamos viver uma vida santa e agradável a Deus. O genuíno cristão, portanto, caminha com Cristo rumo a perfeição, na esperança de que Deus (que justifica o pecador) haverá de aperfeiçoá-lo por ocasião da volta do Senhor Jesus (1Co.15.50-58).

 

Nessa caminhada com Cristo, o discípulo aprende seu modo de viver, sabendo que Aquele que cumpriu toda a Lei (Mt.5.17) sem jamais pecar (Hb.4.15), também capacita os regenerados-justificados (Jo.3.3; Rm.5.1), para que vivam uma vida santa e agradável a Deus, por meio do enchimento “do Espírito, falando entre vós com salmos, entoando e louvando de coração ao Senhor com hinos e cânticos espirituais, dando sempre graças por tudo a nosso Deus e Pai, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo, sujeitando-vos uns aos outros no temor de Cristo” (Ef.5.18-21//Gl.5.22-23).

 

Os dez mandamentos resumem a vontade de Deus para a vida de seu povo. O primeiro dos dez mandamentos ordena ao homem que não tenha outros deuses (Ex.20.1-3). Parece muito simples o cumprimento desse mandamento dentro de uma cultura cristã. Todavia, o homem pode criar tantos deuses quantos o coração é capaz de fabricá-los: esposo, esposa, filhos, amigos, pessoas importantes, o próprio “eu”, dinheiro, bens, a felicidade etc. Por isso, não é estranho encontrarmos pessoas cheias de ídolos dentro das igrejas. Elas idolatram pastores, tradições, o prédio da igreja, cargos eclesiásticos, suas ideias, a denominação, a família, entre outros elementos presentes no contexto cristão. Quando isso ocorre, há grande possibilidade de que tais pessoas sejam apenas religiosas, servindo aos deuses que criaram em lugar do Criador, sem perceberem.

 

Dentre os deuses criados pelo coração do homem encontra-se o orgulho. Este é um dos piores deuses do coração, porque costuma ser sanguinário, disposto a destruir ou matar tudo o que se opuser à sua vontade. O cristão não pode ser orgulhoso (2Co.12.20), pois o Espírito do Senhor o libertou de toda soberba, arrogância, orgulho, vaidade e presunção, para que tenha uma vida humilde à semelhança de Cristo, que viveu como servo (Fp.2.5-11). O orgulho é pecado, obra da carne (1Jo.2.16), e o Senhor adverte sobre as consequências da arrogância: “Não multipliqueis palavras de orgulho, nem saiam coisas arrogantes da vossa boca; porque o SENHOR é o Deus da sabedoria e pesa todos os feitos na balança” (1Sm.2.3). Como, então, um cristão poderia maquinar o mal para satisfazer o orgulho do coração, ou deixar de fazer o que é certo por soberba? Como um cristão poderia querer mostrar que manda na igreja ou que é superior a outra pessoa? Esse procedimento não é cristão, antes é maligno e procede do diabo (Sl.8.13). Ao cristão, no entanto, cabe a humildade e o prazer em servir, conforme Cristo nos ensinou: “Então, Jesus, chamando-os, disse: Sabeis que os governadores dos povos os dominam e que os maiorais exercem autoridade sobre eles. Não é assim entre vós; pelo contrário, quem quiser tornar-se grande entre vós, será esse o que vos sirva; e quem quiser ser o primeiro entre vós será vosso servo; tal como o Filho do Homem, que não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos.” (Mt.20.25-28).

 

Ser cristão, portanto, não significa estar numa igreja aparente nem possuir algum cargo eclesiástico. Ser cristão é andar com Jesus tendo sido liberto de toda idolatria do coração para amar somente a Deus “de todo o teu coração, de toda a tua alma e de toda a tua força” (Dt.6.5). O cristão não possui ídolos, mas um único Deus que é Senhor absoluto sobre sua vida, conduzindo-a por meio da Palavra e do Espírito que são poderosos para transformar “de glória em glória, na sua própria imagem, como pelo Senhor, o Espírito” (2Co.3.18).

 

O segundo mandamento ordenado por Deus ao homem diz que não devemos fazer imagens do Senhor (Ex.20.4-6). Esse mandamento anda bem próximo do anterior, mas é diferente, pois, enquanto o primeiro mandamento proíbe a criação de novos deuses, o segundo mandamento proíbe a criação de falsas imagens a respeito do Verdadeiro Deus. Esse mandamento proíbe pintar ou esculpir imagens sobre Deus, assim como conceber ideias erradas sobre o Criador. Isso costuma ocorrer por meio das falsas concepções teológicas sobre quem é Deus. Vou explicar: Quando alguém conta algo sobre outra pessoa, então passo a ter uma impressão sobre esta pessoa baseada nas informações que recebi. Se as informações forem verdadeiras e justas, então a imagem que formarei sobre aquela pessoa também será verdadeira e justa, mas se as informações forem falsas, parciais ou injustas, então a imagem que terei da pessoa será uma imagem distorcida, falsa e injusta.

 

O mesmo ocorre com respeito a Deus. Só podemos saber quem é Deus por meio de sua autorevelação, afinal quem mais poderia revelar-nos quem Ele é senão Ele mesmo, como disse Paulo: “Ó profundidade da riqueza, tanto da sabedoria como do conhecimento de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos, e quão inescrutáveis, os seus caminhos! Quem, pois, conheceu a mente do Senhor? Ou quem foi o seu conselheiro?” (Rm.11.33-34). Portanto, para conhecermos a Deus, precisamos recorrer à Escritura Sagrada com dedicada, zelosa, humilde, piedosa e temerosa atenção, a fim de que não incorramos no erro de criarmos uma imagem equivocada sobre Deus, a partir de uma má leitura de sua autorevelação.

 

Ser cristão, portanto, significa conhecer a Deus tal como Ele é, não como gostaríamos que Ele fosse. O verdadeiro cristão se contenta com aquilo que o Senhor quis revelar sobre si mesmo e se alegra em possuir o conhecimento do ser de Deus e de suas obras. O verdadeiro cristão zela pela Verdade, pois somente ela pode revelar quem realmente Deus é e a propaga, a fim de que muitos outros possam conhecer o Senhor. Ser cristão é andar com o verdadeiro Cristo, discernindo-o dos muitos falsos cristos que usurpam a glória de Jesus.

 

O terceiro mandamento ordenado por Deus ao homem diz que não devemos falar o NOME do Senhor em vão (Ex.20.7). Os judeus aplicam esse mandamento, principalmente, ao uso do TETAGRAMA, razão pela qual ele tornou-se impronunciável em nossos dias. Vale salientar que nem “JEOVÁ” nem “YAHWEH” são exatas e fiéis transliterações do TETAGRAMA, tendo em vista serem o resultado de especulações de estudiosos sobre sua possível pronúncia, ao induzirem algumas vogais às consoantes do NOME do Senhor. Os escribas judeus tinham tanto zelo pelo NOME do Senhor que apenas o escreviam, sugerindo em notas marginais que o leitor o substituísse na leitura, falando a palavra hebraica equivalente a termo Senhor ([adon]).

 

Todavia, a aplicação desse mandamento vai muito além do TETAGRAMA, pois o NOME do Senhor representa seu Ser. O verdadeiro cristão, portanto, não deve tratar Deus e suas obras de forma vulgar, banal. Piadas “religiosas” não são engraçadas, pois vulgarizam o ser de Deus, a noiva do cordeiro ou os dons do Espírito. O cristão deve andar piedosamente, falando apenas o que for justo e bom, de forma que “não saia da vossa boca nenhuma palavra torpe, e sim unicamente a que for boa para edificação, conforme a necessidade, e, assim, transmita graça aos que ouvem” (Ef.4.29).

 

O verdadeiro cristão não anda zombando daquele a quem diz amar nem permite que outros zombem do Senhor de sua vida. Devemos lembrar que “a boca fala do que está cheio o coração” (Lc.6.45), razão para que os lábios do cristão proclamem somente aquilo que é bom, santo, justo, verdadeiro e agradável a Deus, assim como “tudo o que é verdadeiro, tudo o que é respeitável, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, se alguma virtude há e se algum louvor existe, seja isso o que ocupe o vosso pensamento” (Fp.4.8).

 

O quarto mandamento ordenado pelo Senhor ao homem diz que devemos guardar um dia para descansarmos na presença DELE (Ex.20.8-11). Mesmo estando entre os demais mandamentos morais, confirmados por Cristo (Mt.22.40) em seu sermão do monte (Mt.5-7), o quarto mandamento sofre grande resistência por parte de muitos cristãos de nossos dias que o confundem com o ritual sabático de Israel, que exigia a prática do sacrifício: “No dia de sábado, oferecerás dois cordeiros de um ano, sem defeito, e duas décimas de um efa de flor de farinha, amassada com azeite, em oferta de manjares, e a sua libação; é holocausto de cada sábado, além do holocausto contínuo e a sua libação” (Nm.28.9-10). O ritual sabático de Israel foi ordenado por Deus para que apontasse a vinda de Cristo (1Co.5.7; Cl.2.16; 1Pe.1.19), e não deve ser confundido com o quarto mandamento. Mesmo tão parecidos, os dois mandamentos são distintos, razão para que um permaneça enquanto o outro tenha alcançado seu cumprimento com a chegada do “Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo” (Jo.1.29).

 

Quando Cristo veio, cumpriu todos os rituais judaicos, pois o propósito deles era apontar para a obra redentora de Jesus, e o livro de hebreus explica isso muito bem (Hb.4.14; 9.14). Todavia, o quarto mandamento não é um ritual, mas uma lei moral semelhante a não matar, não adulterar ou não dar falso testemunho. Ou seja, o quarto mandamento é uma benção divina para o bem-estar do homem tanto em seu relacionamento com Deus quanto em seu relacionamento social. Esse mandamento exige, do homem, tempo de atenção para Deus, o Criador de tudo, e evita a exploração dos ricos sobre os pobres, pois garante o direito a um dia semanal de descanso para todos os homens. O quarto mandamento combate a avareza, pois o homem é obrigado a não trabalhar um dia da semana; combate o descaso com a adoração, pois o homem é obrigado a comparecer perante o Senhor; educa os filhos de Deus a terem uma vida regular de meditação na Palavra do Senhor; e, alimenta a esperança cristã na volta do Senhor Jesus, advertindo que “se fostes ressuscitados juntamente com Cristo, buscai as coisas lá do alto, onde Cristo vive, assentado à direita de Deus. Pensai nas coisas lá do alto, não nas que são aqui da terra; porque morrestes, e a vossa vida está oculta juntamente com Cristo, em Deus” (Cl.3.1-3).

 

Ser cristão é andar de tal modo com Jesus que dedique verdadeiro tempo para conversar com Deus e ouvir sua voz. Ou seja, o culto não deve ser uma tradição, apenas, nem mesmo um hábito mecânico. O cristão deve parar para dedicar tempo a Deus, não somente descansando o corpo, mas, sobretudo, o coração, em Cristo Jesus. Afinal se aquele que diz ser cristão não tem satisfação em dedicar algumas poucas horas para Deus, como poderá viver eternamente na presença de Deus? Portanto, o quarto mandamento é mais que uma ordenança divina: é uma bênção do Senhor para todos os que realmente o amam (Jo.14.21,23).

 

O quinto mandamento ordenado por Deus ao homem diz que todos devem honrar pai e mãe (Ex.20.12). O cristão não pode ser rebelde nem desobediente nem cheio de si mesmo, pois aquele que quer ser discípulo do Senhor Jesus, primeiro deve negar a si mesmo (Mt.16.24) e entregar toda a vida a Deus (Dt.6.5) disposto a submeter-se completamente à vontade de Deus (Jo.14.15), de forma que esteja pronto para ouvir todo ensino da Escritura: “Obedecei aos vossos guias e sede submissos para com eles; pois velam por vossa alma, como quem deve prestar contas, para que façam isto com alegria e não gemendo; porque isto não aproveita a vós outros” (Hb.13.17). Quem acha que não precisa dar satisfação de sua vida para seus líderes, não está vivendo em acordo com a Palavra do Senhor e se esqueceu que o próprio Deus instituiu “pastores e mestres” “com vistas ao aperfeiçoamento dos santos” (Ef.4.11-16), pois toda autoridade provém do Senhor (Rm.13.1) e a insubordinação é uma obra da carne (Tt.1.10), como disse Pedro: “Vós, pois, amados, prevenidos como estais de antemão, acautelai-vos; não suceda que, arrastados pelo erro desses insubordinados, descaiais da vossa própria firmeza; antes, crescei na graça e no conhecimento de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. A ele seja a glória, tanto agora como no dia eterno” (2Pe.3.17-18). Enquanto pai, mãe, esposo, líder político, conselho pastoral da igreja, chefe de seu trabalho ou outro líder não ordenarem algo que seja contrário à Palavra de Deus, os liderados tem obrigação de obedecê-los, pois “isto é justo” (Ef.6.1).

 

O sexto mandamento ordenado pelo Senhor ao homem diz que não devemos matar (Ex.20.13). Os judeus não entenderam esse mandamento, pois ao entregarem Jesus para ser morto por Pôncio Pilatos, disseram-lhe: “a nós não é lícito matar ninguém” (Jo.18.31). Ou seja, eles odiaram profundamente Jesus (Mt.27.18; Lc.19.14), armaram planos para entregar Jesus à morte (Mc.14.1), deram falso testemunho (Mt.26.60) com o propósito de incriminar Jesus, a fim de condená-lo à morte, mas não se consideravam transgressores do sexto mandamento. Eles não entendiam que a quebra dos mandamentos não ocorria diante dos homens, mas na presença do Senhor que conhece o mais íntimo do coração humano.

 

A melhor explicação sobre a amplitude do mandamento foi dada pelo Senhor Jesus em seu sermão do monte, mostrando para as multidões que até o mais religioso dos homens, bom aos olhos das pessoas, também é um pecador aos olhos de Deus, pois ninguém pode esconder os pensamentos de diante da face do Senhor:

 

Ouvistes que foi dito aos antigos: Não matarás; e: Quem matar estará sujeito a julgamento.  22 Eu, porém, vos digo que todo aquele que sem motivo se irar contra seu irmão estará sujeito a julgamento; e quem proferir um insulto a seu irmão estará sujeito a julgamento do tribunal; e quem lhe chamar: Tolo, estará sujeito ao inferno de fogo.  23 Se, pois, ao trazeres ao altar a tua oferta, ali te lembrares de que teu irmão tem alguma coisa contra ti,  24 deixa perante o altar a tua oferta, vai primeiro reconciliar-te com teu irmão; e, então, voltando, faze a tua oferta.  25 Entra em acordo sem demora com o teu adversário, enquanto estás com ele a caminho, para que o adversário não te entregue ao juiz, o juiz, ao oficial de justiça, e sejas recolhido à prisão.  26 Em verdade te digo que não sairás dali, enquanto não pagares o último centavo. (Mt.5.21-26)

 

Portanto, ser cristão é ter um novo coração capaz de negar a si mesmo (Mt.16.24), amar o próximo como a si mesmo (Mt.22.39) e ao irmão na fé assim como Cristo nos amou e morreu por nós (Jo.13.34-35). Isso só é possível andando com Jesus, pois Ele partilha de seu amor conosco para que amemos como Ele nos amou, a fim de que testifiquemos o poder da Palavra e do Espírito de Deus que opera eficazmente na vida daqueles que creem verdadeiramente em Cristo.

 

O sétimo mandamento ordenado por Deus ao homem diz que não devemos adulterar (Ex.20.14). É importante lembrar que o adultério aponta para duas ações distintas que podem ocorrer tanto de modo independente quanto unidas para a geração de um só ato: 1) engano ou traição; 2) imoralidade. Por essa razão, podemos falar em adulterar documentos, resultados e coisas semelhantes. O adultério envolve, portanto, a desonestidade pois aquele que o pratica quebra um contrato: a aliança conjugal. Dessa forma, o sétimo mandamento também proíbe a mentira, o engano, a traição, o fingimento, a desonestidade, a hipocrisia, a dissimulação e coisas semelhantes a estas. Além disso, este mandamento adverte quanto a obrigação de buscar uma vida santa, pura e piedosa, fugindo de tudo o que for imoral e impuro, mesmo que seja um pensamento ou palavra (Mt.5.28).

 

De forma semelhante ao que ocorre com o sexto mandamento, o Senhor Jesus nos ensina como devemos aplicar o sétimo mandamento (não adulterarás) ao mais íntimos sentimentos e pensamentos:

 

Ouvistes que foi dito: Não adulterarás.  28 Eu, porém, vos digo: qualquer que olhar para uma mulher com intenção impura, no coração, já adulterou com ela.  29 Se o teu olho direito te faz tropeçar, arranca-o e lança-o de ti; pois te convém que se perca um dos teus membros, e não seja todo o teu corpo lançado no inferno.  30 E, se a tua mão direita te faz tropeçar, corta-a e lança-a de ti; pois te convém que se perca um dos teus membros, e não vá todo o teu corpo para o inferno.  31 Também foi dito: Aquele que repudiar sua mulher, dê-lhe carta de divórcio.  32 Eu, porém, vos digo: qualquer que repudiar sua mulher, exceto em caso de relações sexuais ilícitas, a expõe a tornar-se adúltera; e aquele que casar com a repudiada comete adultério. (Mt.5.27-32)

 

Ser cristão é ter uma nova disposição mental guiada pelo Espírito e pela Palavra de Deus, por meio dos quais as palavras de nossos lábios e o meditar de nosso coração são agradáveis na presença do Senhor (Sl.19.14). A melhor forma de vencer as tentações relacionadas aos desejos sexuais é mantendo a mente cheia da Palavra de Deus e os olhos fitos nas “coisas lá do alto, onde Cristo vive, assentado à direita de Deus” (Cl.3.1), através de uma vida cheia do Espírito de Deus (Ef.5.18) adquirida num andar diário com Cristo Jesus.

 

O oitavo mandamento ordenado pelo Senhor ao homem diz que não devemos furtar (Ex.20.15). Furtar é tirar do outro aquilo que lhe é de direito quer seja dinheiro, bens ou honra. Um cônjuge que não cumpre seu papel conjugal está roubando o direito que o outro tem de satisfazer sua necessidade sexual, pois diz a Escritura: “O marido conceda à esposa o que lhe é devido, e também, semelhantemente, a esposa, ao seu marido. A mulher não tem poder sobre o seu próprio corpo, e sim o marido; e também, semelhantemente, o marido não tem poder sobre o seu próprio corpo, e sim a mulher” (1Co.7.3-4). O dono de uma empresa que não paga os funcionários corretamente está roubando deles o direito ao salário digno, pois diz a Palavra de Deus: “Não amordaces o boi, quando pisa o trigo. E ainda: O trabalhador é digno do seu salário” (1Tm.5.18). O cristão que não dá ao Senhor aquilo que lhe é devido (adoração, obediência, oração) está roubando de Deus todos os direitos que possui como Criador, pois assim diz o Salmo 100:

 

Celebrai com júbilo ao SENHOR, todas as terras.  2 Servi ao SENHOR com alegria, apresentai-vos diante dele com cântico.  3 Sabei que o SENHOR é Deus; foi ele quem nos fez, e dele somos; somos o seu povo e rebanho do seu pastoreio.  4 Entrai por suas portas com ações de graças e nos seus átrios, com hinos de louvor; rendei-lhe graças e bendizei-lhe o nome.  5 Porque o SENHOR é bom, a sua misericórdia dura para sempre, e, de geração em geração, a sua fidelidade.

 

Ser cristão, portanto, é pensar no bem do próximo, como Jesus que abençoou sua geração manifestando a glória e graça do Senhor, de modo que “os cegos veem, os coxos andam, os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos são ressuscitados, e aos pobres, anuncia-se-lhes o evangelho” (Lc.7.22). Por isso, o apóstolo Paulo ensina à igreja de Éfeso que o trabalho é um instrumento para abençoar vidas, não apenas para conquistar benefícios particulares: “Aquele que furtava não furte mais; antes, trabalhe, fazendo com as próprias mãos o que é bom, para que tenha com que acudir ao necessitado” (Ef.4.28); e, aquele que se nega a fazer da vida um instrumento de bênção está furtando das pessoas o direito de ser abençoado, visto que “aquele que sabe que deve fazer o bem e não o faz nisso está pecando” (Tg.4.17).

 

O nono mandamento ordena que o homem não dê falso testemunho (Ex.20.16). O cristão não pode ser mentiroso, pois a Verdade o libertou, a fim de que viva nessa Verdade (Jo.8.32). De Deus jamais procede qualquer mentira, quer aparentemente “grande” quer “pequena” aos olhos dos homens. Jesus afirma que toda mentira procede do diabo que “é mentiroso e pai da mentira” (Jo.8.44). Todo diálogo com Jesus será fundamentado na Verdade enquanto que o diabo se satisfaz em falar mentiras. Portanto, o cristão não pode andar com Jesus e com o diabo ao mesmo tempo.

 

O cristão não pode ser fingido com as pessoas, com o propósito de agradá-las. O fingimento é uma marca do diabo que está sempre enganando as pessoas, iludindo as vítimas por meio do fingimento para destruí-las depois. Fingir que gosta de alguém ou que concorda com essa pessoa enquanto está maquinando o mal contra ela é algo maligno (2Tm.3.4) e Deus odeia essa malignidade, pois vem de Satanás (Jo.8.44). Foi assim que procedeu Judas, como narra o Evangelho de Lucas: “Jesus, porém, lhe disse: Judas, com um beijo trais o Filho do Homem?” (Lc.22.48). Fingir ser bonzinho para atrair as pessoas para si mesmo enquanto mente e engana é um papel do anticristo (2Ts.2.3-4), portanto jamais poderia vir de um verdadeiro cristão.

 

Esse mandamento também é uma advertência contra todo relativismo e pluralismo. A relativização da Verdade não passa de uma mentira, pois afirma que a Verdade não existe. Ao negar a existência da Verdade, o relativismo nega tanto a veracidade da Escritura Sagrada, que é a Verdade (Jo.17.17), quanto a existência de Deus, de quem procede toda Verdade (Sl.19.7-10). Do mesmo modo, a pluralização da Verdade transforma as pessoas em senhoras da verdade, deuses de si mesmo que só precisam ouvir a si mesmas. Portanto, o relativismo e o pluralismo são, por natureza, ateístas, ou seja, quebras tanto do nono mandamento quanto do primeiro mandamento.

 

O décimo mandamento ordenado pelo Senhor ao homem diz que não devemos cobiçar (Ex.20.17). A cobiça é resultado da necessidade que coração pecador tem de satisfazer-se. O homem quer ser feliz, mas não sabe como alcançar essa felicidade. Então, ele cobiça as coisas ao seu redor, pensando que alcançará a felicidade por meio delas. A cobiça, portanto, está arraigada na idolatria, sendo uma quebra do primeiro mandamento, também. Por isso, a cura para a cobiça não é a realização de todos os desejos, mas a plena satisfação em Deus de forma que o coração não sinta necessidade de nada mais, pois alcançou, no conhecimento de Deus, a plena felicidade que somente o Espírito Santo pode conceder ao homem.

 

O salmista Davi afirma que a graça do Senhor basta para aquele que anda com Deus (Sl.63.3). Afinal, o Senhor é a fonte da vida (At.3.15) e da nova vida (Ez.36.26-27; Hb.12.2), causa e propósito da existência humana, “porque dele, e por meio dele, e para ele são todas as coisas. A ele, pois, a glória eternamente” (Rm.11.36). Antes de Jesus ir para a cruz, consolou os discípulos prometendo voltar (ressuscitar) para que eles estivessem onde Ele está, ou seja, no Pai (Jo.14.3). Quando a obra redentora fosse consumada (Jo.19.30), Cristo disse que “o vosso coração se alegrará, e a vossa alegria ninguém poderá tirar” (Jo.16.22). Portanto, a felicidade dos discípulos estaria alicerçada em Cristo e procederia do Espírito do Senhor.

 

Como, então, um coração satisfeito por Cristo cobiçaria as coisas desse mundo? O profeta Jeremias proclamou a perplexidade de Deus diante de Israel, pois o povo havia trocado o Deus da glória pelos anseios do coração idólatra: “Houve alguma nação que trocasse os seus deuses, posto que não eram deuses? Todavia, o meu povo trocou a sua Glória por aquilo que é de nenhum proveito.” (Jr.2.11). Aquilo que o profeta falou sobre a idolatria do povo, aplica-se às mais diversas cobiças do homem, pois quando Deus não satisfaz o coração, as pessoas murmuram diante do que têm e cobiçam aquilo que não têm. Desse modo, o decimo mandamento proíbe a inveja e a insatisfação, assim como ordena o contentamento em Deus. Paulo disse que “aprendeu a viver contente em toda e qualquer situação” (Fp.4.11), de forma que mesmo passando por todo tipo de problema e privação, não reclamou da vida, antes deu graças a Deus por tudo (Ef.5.20). Esse contentamento decorre de uma vida cheia do Espírito de Deus, de um coração plenamente satisfeito com o conhecimento de Cristo.

 

Ser cristão é andar com Cristo, cheio do Espírito Santo, em santidade de vida, rumo à cidade celestial preparada para o povo de Deus. Não basta estar na igreja, é preciso ter o coração convertido como disse o profeta Ezequiel: “Dar-vos-ei coração novo e porei dentro de vós espírito novo; tirarei de vós o coração de pedra e vos darei coração de carne. Porei dentro de vós o meu Espírito e farei que andeis nos meus estatutos, guardeis os meus juízos e os observeis” (Ez.36.26-27). É esse coração novo que sempre estará arrependido de seus pecados e buscará a vontade do Senhor. É esse coração novo que luta contra as obras da carne, por meio do Espírito do Senhor, e vence os desejos da natureza pecadora que ainda insiste em habitar no homem (Gl.5.16-23).

 

Então, você é realmente um cristão? Você sabe quem é Cristo e o que Ele fez na cruz? Você realmente nasceu da Palavra e do Espírito do Senhor? Você tem prazer em viver uma vida para Cristo? Seu coração foi quebrantado pelo poder de Cristo para uma vida humilde? Então, mostre essa nova vida por meio de seu dia a dia, em palavras e atitudes, firmado na Verdade que é a Palavra de Deus e cheio de frutos de justiça decorrentes de uma vida cheia do Espírito Santo, pois o verdadeiro cristão é aquele que anda o tempo todo com o Senhor Jesus.

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