A providência de Deus

September 14, 2018

 

 

“Porque, se de todo te calares agora, de outra parte se levantará para os judeus socorro e livramento, mas tu e a casa de teu pai perecereis; e quem sabe se para conjuntura como esta é que foste elevada a rainha?” (Et.4.14)

 

Como é bom ter pai e mãe cuidando de nós! Quando crianças ou jovens, não precisávamos nos preocupar com a feira do mês nem com as roupas. Nossos pais pensavam em tudo, presente e futuro, providenciando o melhor com respeito a todas as esferas de nossa vida: educação, saúde, profissão, relacionamentos fraternos, casamento. Tantas vezes, quando despertávamos para alguma necessidade, os pais já haviam se antecipado, a fim de providenciar o necessário para o bem-estar de seus filhos, mesmo que isso significasse disciplina. Nesse ambiente adornado por providências, os filhos podem sentir-se seguros e tranquilos, pois há alguém cuidando deles.

 

Numa macro visão, pertencemos a um “lar” bem mais vasto, o universo, do qual Deus é Senhor. Por isso, diz o Salmista: “Todos esperam de ti que lhes dês de comer a seu tempo. Se lhes dás, eles o recolhem; se abres a mão, eles se fartam de bens. Se ocultas o rosto, eles se perturbam; se lhes cortas a respiração, morrem e voltam ao seu pó. Envias o teu Espírito, eles são criados, e, assim, renovas a face da terra.” (Sl.104.27-30). Toda a criação espera na providência de Deus, razão de tudo existir e continuar existindo, pois nada existiria sem os cuidados daquele que é Criador e Senhor de tudo:

 

O teu reino é o de todos os séculos, e o teu domínio subsiste por todas as gerações. O SENHOR é fiel em todas as suas palavras e santo em todas as suas obras. 14 O SENHOR sustém os que vacilam e apruma todos os prostrados. 15 Em ti esperam os olhos de todos, e tu, a seu tempo, lhes dás o alimento. 16 Abres a mão e satisfazes de benevolência a todo vivente. (Sl.145.13-16)

 

Encontramos, então, a providência de Deus em toda a história redentora. No Éden, Deus revela sua providência ao se antecipar à queda da humanidade, preparando a mulher para o homem (Gn.2.18-25), livrando o ser humano da extinção, pois a salvação viria do “filho do homem” (Gn.3.15). Outra graciosa providência divina ocorre após a queda quando o Senhor escondeu a árvore da vida do alcance do homem: “Então, disse o SENHOR Deus: Eis que o homem se tornou como um de nós, conhecedor do bem e do mal; assim, que não estenda a mão, e tome também da árvore da vida, e coma, e viva eternamente.” (Gn.3.22).

 

Durante toda a história redentora, o diabo tentou impedir o cumprimento da salvação prometida, fazendo uso da ação dos mais diversos pecadores de um mundo que “jaz no maligno” (1Jo.5.19). Deus, então, revela sua providência se antecipando por meio de suas intervenções ordinárias ou extraordinárias para garantir a perseverança dos santos e o bom andamento do projeto redentor até seu cumprimento. Devemos lembrar que a revelação de seu Ser e suas obras ocorrem de duas maneiras: por proposições revelatórias (Gn.17.1) e através de atos criativos ou redentores (Gn.17.4-8//Gn.21.2). Em grande medida, a revelação da providência divina ocorre por meio de atos divinos que são manifestos no decurso da história do povo de Deus.

 

No dilúvio (Gn.6-9), Deus intervém impedindo que o mal se proliferasse ainda mais, protegendo, assim, Noé e sua família que são conservados com vida, garantindo que o projeto redentor teria continuidade por meio da semente de Noé. Vemos, então, que a providência divina é contrária ao mal enquanto é favorável àqueles que Deus ama, como disse Paulo: “Sabemos que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito.” (Rm.8.28).

 

Mais adiante, Deus se antecipa a uma grande ameaça que poderia levar à morte toda a família de Jacó (Gn.37-50). Sete anos de fome viriam sobre a terra como um feroz adversário que consumiria tudo naqueles dias (Gn.41.28-31). Deus, em seu mui sábio conselho, manifesta sua graciosa providência se antecipando ao problema por meio do envio de José ao Egito. Interessante observarmos os meios empregados para isso, nas palavras de José:

 

Agora, pois, não vos entristeçais, nem vos irriteis contra vós mesmos por me haverdes vendido para aqui; porque, para conservação da vida, Deus me enviou adiante de vós.  6 Porque já houve dois anos de fome na terra, e ainda restam cinco anos em que não haverá lavoura nem colheita.  7 Deus me enviou adiante de vós, para conservar vossa sucessão na terra e para vos preservar a vida por um grande livramento.  8 Assim, não fostes vós que me enviastes para cá, e sim Deus, que me pôs por pai de Faraó, e senhor de toda a sua casa, e como governador em toda a terra do Egito. (Gn.45.5-8)

 

Respondeu-lhes José: Não temais; acaso, estou eu em lugar de Deus?  20 Vós, na verdade, intentastes o mal contra mim; porém Deus o tornou em bem, para fazer, como vedes agora, que se conserve muita gente em vida.  21 Não temais, pois; eu vos sustentarei a vós outros e a vossos filhos. Assim, os consolou e lhes falou ao coração. (Gn.50.19-21)

 

Deus primeiramente revelou seu plano por meio de sonhos dados a José (Gn.37.5-11). Em seguida, o projeto é posto em prática por meio da instrumentalidade do pecado dos irmãos de José (Gn.37.18-28). Assim tem início uma longa jornada de aproximadamente vinte e dois anos até o dia em que José se revela a seus irmãos, a fim de conduzir toda sua família para a terra de Gósen (Gn.45.10) onde seria sustentada durante os cinco anos de fome que ainda restavam (Gn.45.6). Desse modo, Deus salvou a família escolhida como instrumento para a vinda do Messias prometido, o Filho de Deus.

 

Nas páginas do Novo Testamento, a providência divina é qualificada como precedente (ou concomitante) à criação do mundo (Mt.25.34; Ef.1.4; Hb.4.3; 1Pe.1.20. Ap.13.8; 17.8). Essa providência envolve todo o projeto redentor que vai desde a eleição daqueles que herdarão a vida eterna até os meios ordinários e extraordinários para a concretização da salvação. Portanto, Deus, em sua providência, fez (e faz) uso tanto de boas ações praticadas pelos homens, tais como a fidelidade de Noé, a fé de Abraão, o amor de Davi, o zelo de Josias etc., quanto também fez (e faz) uso das más ações de muitos homens como Judas que foi instrumento para consolidar a morte de Cristo na cruz (Mt.26.47-50).

 

Judas é um importante personagem para a compreensão de diversos assuntos, tais como a discussão sobre os iluminados de Hebreus 6.4-8 (sugiro a leitura do texto: http://voxscripturae.blogspot.com/2016/06/eles-nunca-foram-salvos.html). Judas foi chamado, propositadamente, por Cristo para fazer parte do colegiado dos doze apóstolos, a fim de que viesse a trair Jesus. Estando entre os doze e participando de todo o ministério de Cristo, Judas conheceria todos os passos do mestre, sendo a pessoa mais adequada para traí-lo com eficácia. Portanto, Judas foi instrumento da providência de Deus para concretizar o plano redentor do Senhor: “Replicou-lhes Jesus: Não vos escolhi eu em número de doze? Contudo, um de vós é diabo. Referia-se ele a Judas, filho de Simão Iscariotes; porque era quem estava para traí-lo, sendo um dos doze.” (Jo.6.70-71).

 

Estava próxima a Festa dos Pães Asmos, chamada Páscoa.  2 Preocupavam-se os principais sacerdotes e os escribas em como tirar a vida a Jesus; porque temiam o povo.  3 Ora, Satanás entrou em Judas, chamado Iscariotes, que era um dos doze.  4 Este foi entender-se com os principais sacerdotes e os capitães sobre como lhes entregaria a Jesus;  5 então, eles se alegraram e combinaram em lhe dar dinheiro.  6 Judas concordou e buscava uma boa ocasião de lho entregar sem tumulto. (Lc.22.1-6)

 

Por toda a história redentora, Deus agiu providencialmente para garantir que seus propósitos fossem alcançados. Vemos isso nas guerras de Israel contra seus inimigos, por meio dos quais tantas vezes Deus matou seus adversários, tais como Saul (1Sm.31). Tendo em vista a necessidade de santificar seu povo, Deus fez uso de reis dominadores como Nabucodonosor que destruiu Jerusalém e levou cativos muitos homens fiéis, servindo como instrumento não só para a purificação da nação (matando os ímpios de seu meio), mas, também para a propagação do conhecimento do Senhor através daqueles que foram espalhados pelo mundo (1Cr.36.10-21; At.2.5-11).

 

Interessante destacarmos dois livros do Antigo Testamento nos quais a providência de Deus é a linha mestre por meio da qual todos os movimentos ocorrem concorrendo para o clímax da narrativa: Rute e Ester. Em Rute, Deus providencia o encontro (Rt.2.3) e o casamento entre Rute e Boaz (Rt.4), a fim de que deles nascesse Obede, avô de Davi (Rt.4.22). Não aparecem profetas no livro, mas Deus faz com que tudo concorra para o bem dos personagens principais, garantindo o cumprimento de sua vontade redentora. Contrapondo a atitude de Elimeleque e Noemi que haviam fugido da fome indo para as terras de Moabe, a fim de salvarem suas próprias vidas, por meio da história de Rute, Deus convida seu povo a confiar nEle, pois somente nEle há verdadeira salvação (Rt.4.13-15).

 

No livro de Ester a providência de Deus evita o completo aniquilamento dos judeus. Em nenhum dos dez capítulos do livro aparecem o Tetragrama ou a palavra Deus. Todavia, a providência do Senhor permeia toda a história como causa primária da coroação de Ester (para rainha e esposa do rei Assuero), com o propósito de livrar o povo de Deus dos planos malignos de Hamã que desejava aniquilar os judeus: “Porque, se de todo te calares agora, de outra parte se levantará para os judeus socorro e livramento, mas tu e a casa de teu pai perecereis; e quem sabe se para conjuntura como esta é que foste elevada a rainha?” (Et.4.14).

 

O livro narra diversos atos providentes de Deus que se antecipa ao grande mal que Hamã intentaria contra o povo de Deus e, consequentemente, contra o plano redentor do Senhor. Essas atos providentes de Deus contemplam diversas ações de personagens do livro: 1) a rainha Vasti se recusa a obedecer o rei Assuero (Et.1.12); 2) os conselheiros do rei sugerem a deposição dela e substituição por outra (Et.1.19; 2.4); 3) o rei Assuero ama Ester mais do que todas as virgens que lhe foram apresentadas (Et.2.17); 4) Mordecai descobre uma conspiração contra o rei Assuero e o livra da morte (Et.2.21-24); 5) o rei Assuero não consegue dormir e pede para que se leia o livro dos feitos memoráveis onde encontrava-se registrado o feito de Mordecai (Et.6.1-14); 6) Hamã cai acidentalmente sobre a rainha Ester quando esta revela o plano de Hamã contra os judeus (Et.7.8); 7) o rei Assuero decide dar seu anel (autoridade) para Mordecai, a fim de tomar decisões em nome do rei (Et.8.2); 8) um temor sobrevém aos povos no dia em que teriam que lutar contra os judeus (Et.9.3).

 

A providência divina aparece em toda a Escritura quer em ações, preservando o plano redentor, quer sendo louvada pelo povo de Deus que assiste a providência do Senhor (livro de Salmos). Ela se manifesta nos atos criativos de Deus, na escolha de personagens para dar seguimento à história redentora, na Lei entregue a Israel, a fim de santificar o povo de Deus, nas profecias que preanunciaram a salvação do Senhor e nos mais variados atos redentores operados em benefício de poucos indivíduos ou de uma nação inteira, apontando-nos para as palavras de Paulo: “todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito” (Rm.8.28) e “Porque dele, e por meio dele, e para ele são todas as coisas. A ele, pois, a glória eternamente” (Rm.11.36).

 

Portanto, a revelação da providência de Deus nos convida a confiarmos completamente no Senhor quer em momentos bons quer em momentos ruins, seja andando por pastos verdejantes seja passando pelo vale da sombra da morte (Sl.23), pois o Senhor sempre está com seu povo, tendo em vista que o ama (Rm.5.8). Problemas sempre aparecerão como apareceram na história de Israel, pois o mundo jaz no maligno (1Jo.5.19). Mas, Deus nunca deixará seu povo, mesmo que permaneça em aparente silêncio. Nesses momentos de necessidade, ore a Deus (Fp.4.6-7) lembrando suas maravilhas da antiguidade, os grandes, poderosos e graciosos feitos do Senhor, a fim de consolar seu coração nas promessas divinas “porque desde a antiguidade não se ouviu, nem com ouvidos se percebeu, nem com os olhos se viu Deus além de ti, que trabalha para aquele que nele espera” (Is.64.4).

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