O dízimo de Abrão

February 14, 2019

 

 

“abençoou ele a Abrão e disse: Bendito seja Abrão pelo Deus Altíssimo, que possui os céus e a terra; e bendito seja o Deus Altíssimo, que entregou os teus adversários nas tuas mãos. E de tudo lhe deu Abrão o dízimo.” (Gn.14.19-20)

 

Em 1 Timóteo 6.10, o apóstolo Paulo diz que “o amor do dinheiro é raiz de todos os males; e alguns, nessa cobiça, se desviaram da fé e a si mesmos se atormentaram com muitas dores”. Deste amor procedem invejas, vaidades, ambições e idolatrias. Por causa dele, pessoas fazem mal para outras enquanto alguns são iludidos por promessas religiosas de prosperidade. Além desses prejuízos para as relações sociais, o amor do dinheiro transtorna o coração humano tornando-o em um constante mar bravio não velejável.

 

O amor do dinheiro também adoeceu o universo do trabalho humano, desde a indústria até o comércio. Mentiras de quem vende, exploração de trabalhadores, especulações imobiliárias, pessoas comprando o que não precisam etc. revelam uma geração doente por causa do amor do dinheiro. Enganar e ser enganado passou a fazer parte do dia a dia das cidades grandes e a corrupção foi acrescida à cultura da nação.

 

Os problemas causados pelo amor do dinheiro não devem amedrontar o cristão, mas deixa-lo atento para a necessidade de buscar em Deus o conhecimento necessário sobre o assunto. Desde os primórdios (Gn.13.2), o dinheiro faz parte do cotidiano da sociedade como instrumento de troca. E, em nossos dias, ganhou um destaque especial em todas as relações trabalhistas. Portanto, é importante que o cristão saiba como lidar com o assunto, parte do dia a dia de todos os cidadãos urbanos.

 

Nosso propósito aqui não é trabalhar amplamente sobre o tema finanças, mas mostrar como Abrão tratou o assunto. Veremos isso em um evento específico da vida deste patriarca, conhecido como pai da fé, que seguiu os passos do Senhor percorrendo a jornada proposta por Deus. Com um pouco mais de atenção podemos ver que sua fé era ampla e profunda, prática e cotidiana. Portanto, a fé de Abrão também envolvia sua relação com os bens, tanto diante de Deus quanto diante do mundo.

 

Para isso, gostaríamos de voltar os olhos a um texto muito antigo, que precede a Lei mosaica e tem íntima relação com Cristo, por causa de sua tipologia: Gênesis 14. Nesse texto, Deus nos revela a guerra de quatro reis contra cinco reis, a vitória de Abrão na luta para resgatar seu sobrinho Ló que havia sido levado como escravo e o diálogo entre Abrão e dois personagens bem distintos: o rei de Salém e o rei de Sodoma (Gn.14.18,21). E, assim, se dá o desfecho do texto por meio do maravilhoso encontro entre Abrão e Melquisedeque, tipo de Cristo, o Messias prometido (Gn.14.18).

 

O texto é iniciado com o relato de que Quedorlaomer, rei de Elão (Gn.14.4,9), dominava sobre outros reinos, dentre os quais cinco já não queriam mais se submeter. O domínio de um rei sobre outros povos costumava envolver a cobrança de impostos altos, constantes ameaças para amedrontar o povo, abuso de mulheres e escravidão. Portanto, viver uma vida tranquila contentando-se com a subsistência diária necessária, respeitando as pessoas ao redor, não era suficiente para Quedorlaomer.

 

Essa sede pelo poder resulta em uma guerra para tentar reaver os povos que já não queriam mais viver debaixo do jugo de Quedorlaomer. Os cinco reis, dentro os quais encontrava-se Bera, rei de Sodoma (Gn.14.2), lutavam pela liberdade e, mesmo sendo maior em número, perderam a guerra contra os quatro reinos do exército de Quedorlaomer. A tentativa de alcançar a liberdade por meio das próprias forças foi frustrada.

 

A introdução desse capítulo é bastante importante para realçar o que está por vir. As ambições do mundo levam à guerra, morte, destruição, confusão e coisas semelhantes. Homens matam homens por causa de poder e dinheiro. Pessoas tentam prejudicar outras pessoas pelo simples fato de quererem dominar sobre elas. Como disse Jesus: “Os reis dos povos dominam sobre eles, e os que exercem autoridade são chamados benfeitores” (Lc.22.25).

 

Contrastando com este triste cenário de pecados, aparece Abrão para libertar seu sobrinho Ló que havia sido levado cativo pelos quatro reis que venceram a guerra. A batalha não era de Abrão, mas a necessidade de libertar seu sobrinho o fez sentir-se no dever de entrar na guerra com um único propósito: libertar seus familiares. Abrão não lutava por si, mas pelos outros, e a confiança que o levou à guerra para vencer não estava em suas armas ou valentia, mas naquele que havia prometido estar presente para abençoá-lo: Deus (Gn.12.2).

 

Sodoma e os demais reis aliados também lutaram pela liberdade, todavia foram derrotados. Eles mostraram-se incapazes de se ver livres por suas próprias forças. Contudo, Abrão, na força do Senhor “que entregou os teus adversários nas tuas mãos” (Gn.14.20), venceu os quatro reis e libertou todos os cativos, dentre os quais encontrava-se Ló, seu sobrinho. Consideramos que esse episódio seja uma possível indicação que a liberdade divina seria providenciada a partir de Abrão, em seu descendente: Cristo, no qual seriam “benditas todas as famílias da terra” (Gn.12.3).

 

Surge, então, um encontro inesperado com o rei de Salém (antiga Jerusalém): profeta, sacerdote e rei. Abrão recebe a bênção de Deus, dada por Melquisedeque. À vista disso, Abrão toma de todos os seus bens e dá o dízimo de tudo a Melquisedeque (tipo de Cristo – Sl.110.4; Hb.5.6, 10; 6.20; 7.1-19). Assim, Abrão reconheceu que tudo o que possuía vinha do Criador e que sua vitória deveria ser tributada a Deus. O coração de Abrão não estava no dinheiro, mas no Senhor, seu Deus, e sua confiança encontrava-se na providência divina. E, ao contrário de Quedorlaomer, Abrão age como um humilde servo de Deus.

 

Por ter vencido a guerra, Abrão tinha o direito de ficar com todos os bens envolvidos. Por isso, o rei de Sodoma se dirige a Abrão, dizendo: “Dá-me as pessoas, e os bens ficarão contigo” (Gn.14.21). Mas, o coração de Abrão não estava nos bens, seu coração estava no Senhor que lhe havia feito promessas muito superiores e, em tudo, o abençoava (Gn.13.2). Então, Abrão recusa ficar com os pertences daqueles reis pagãos (Gn.14.22-24), mostrando integridade em não se aproveitar da fragilidade daqueles povos, ao contrário do que havia feito Quedorlaomer. As bênçãos do Senhor eram suficientes para Abrão que recusa as riquezas do mundo e demonstra sua plena confiança na provisão divina. Os olhos de Abrão permanecem fitos em Deus e nas promessas divinas, de modo que suas conquistas não o desviam da jornada proposta pelo Senhor.

 

O amor a Deus resultou numa dedicação da vida ao Senhor e num desapego das riquezas dessa vida. O dízimo de Abrão foi um ato de fé e amor de muito maior valor qualitativo do que quantitativo. Por isso, Jesus disse: “onde está o teu tesouro, aí estará também o teu coração” (Mt.6.21). Em Abrão, vemos que dizimar é uma prática didática que nos lembra cotidianamente que tudo vem de Deus e que não devemos ambicionar as riquezas desse mundo, pois nosso maior tesouro é Cristo nosso Senhor e Salvador. O dízimo de Abrão contrapõe a avareza e a tirania do mundo maligno que busca poder e riquezas, usando tudo a seu redor em benefício próprio.

 

O dízimo de Abraão antecede em muito a Lei de Moisés estando, portanto, completamente desvinculado dos impostos do Tabernáculo/Templo que foi construído por ocasião da organização da vida cúltica de Israel. Sem qualquer vínculo com a Lei mosaica, Abrão pode ser chamado de pai do dízimo da fé, não do imposto do Templo. Essa prática foi transmitida adiante de modo que a encontramos em Jacó que prometeu dar o dízimo de tudo para Deus depois de sua jornada de ida e volta em busca de uma esposa (Gn.28.22).

 

Abrão fez o caminho inverso de Quedorlaomer que ambicionava poder e riquezas. As duas posturas de Abrão demonstram sua fé nas promessas de Deus e sua firme esperança no cumprimento da Palavra de Deus. Abrão tributou a Deus toda glória por tudo, devolvendo ao Senhor dez por cento de tudo o que tinha. Assim, Abrão mostrou que tanto confiava na providência de Deus quanto estava livre do amor às coisas e, por isso, também rejeitou ser enriquecido por Sodoma, uma cidade que seria revelada como perversa aos olhos de Deus.

 

Além do contraste encontrado entre Abrão e Quedorlaomer, encontramos uma profunda diferença entre o rei tirano pagão, Quedorlaomer, e o rei tipológico, Melquisedeque. Enquanto o rei de Elão desejava dominar sobre outros povos para tirar proveito deles, o rei de Salém aparece para abençoar o servo do Senhor, Abrão. O primeiro tira proveito dos mais fracos enquanto o segundo leva pão e vinho para comemorar a vitória concedida por Deus a Abrão. Quedorlaomer vai à guerra para sua glória e benefício, enquanto Melquisedeque sai em louvores a Deus, bendizendo Aquele que é Senhor dos céus e da terra.

 

Nesse evento da vida de Abrão, podemos ver que, muito mais do que o imposto do templo, o dízimo demonstra que o povo de Deus aponta para um caminho contrário ao mundo. Enquanto reis dominam sobre outros por causa da ambição, querendo ter cada vez mais, pois nada lhes é suficiente, a igreja é ensinada a se contentar com o que recebe da parte do Senhor, como disse o apóstolo Paulo: “aprendi a viver contente em toda e qualquer situação” (Fp.4.11). Enquanto, no mundo, pessoas se tornam escravas por causa da ganância dos homens, na igreja um irmão deve servir a outro com tudo que é e tem. Enquanto o mundo vive em guerra por causa das ambições, a igreja é conclamada a encontrar nas promessas do Senhor “a paz de Deus, que excede todo o entendimento” (Fp.4.7). E, assim, didaticamente, o dízimo aponta para a confiança que todo servo de Deus deve ter nas promessas do Senhor, pois, como disse o apóstolo Pedro: “Ele tem cuidado de vós” (1Pe.5.7).

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