Por que estás abatida, ó minha alma?

February 29, 2020

 

“Não andeis ansiosos de coisa alguma; em tudo, porém, sejam conhecidas, diante de Deus, as vossas petições, pela oração e pela súplica, com ações de graças” (Fp.4.6)

 

Conforme reportagem de 5 de junho de 2019, da revista Exame, o Brasil tem o maior número de pessoas ansiosas do mundo, segundo dados da Organização Mundial de Saúde (OMS). Considerando que os dados se baseiam apenas em informações oficiais, podemos afirmar que a “epidemia de ansiedade” é ainda maior, pois boa parte das pessoas sofre desse mal de modo privado.

 

Talvez você já tenha sentido os sintomas da ansiedade: preocupação exagerada e contínua, junto a certo medo diante de questões comuns à vida. A ansiedade não precisa ter uma razão justa para se revelar. Pessoas ficam ansiosas frente a problemas pequenos e solucionáveis da vida ou quando enfrentam grandes desafios que vão além da própria capacidade para vencê-los. É possível uma pessoa ficar ansiosa pela chegada de alguém ou até pela compra de algum objeto. É comum a ansiedade em vésperas de uma prova e, principalmente, quando a data do pagamento de uma conta está chegando, mas não se sabe ainda como será paga.

 

Torna-se maior o problema da ansiedade por estar tão frequente no meio da igreja de Cristo. Digo isto, não por pensar que o cristão está isento de doenças ou problemas. Levanto a questão porque a ansiedade é um mal do coração e pode ser considerada o oposto da plena confiança de quem descansa plenamente no Criador e sustentador de todas as coisas (Mt.6.25-34). Ou seja, a ansiedade tem sido encontrada em semelhante medida entre aqueles que afirmam crer no Senhor e Salvador de suas vidas tanto quanto está presente entre os incrédulos, aqueles que estão “separados da comunidade de Israel e estranhos às alianças da promessa, não tendo esperança e sem Deus no mundo” (Ef.2.11).

 

Por essa razão, tanto Jesus exclamou: “não andeis ansiosos pela vossa vida” (Mt.6.25) quanto Paulo exortou: “Não andeis ansiosos de coisa alguma; em tudo, porém, sejam conhecidas, diante de Deus, as vossas petições, pela oração e pela súplica, com ações de graças” (Fp.4.6). A Escritura não considera a ansiedade uma doença psicossomática nem um distúrbio químico da mente. Para a Palavra de Deus, a ansiedade é um estado de espírito de quem não está contemplando a presença real de Deus a seu lado. Por isso, a confiança no Senhor é apontada como a vitória eficaz sobre a ansiedade.

 

Um paralelo bíblico interessante encontra-se em 2 Reis 6.8-23. Conforme a narrativa, “o rei da Síria fez guerra a Israel” (2Rs.6.8). Mas, todas as empreitadas do rei da Síria eram frustradas, pois Eliseu revelava ao rei de Israel quais eram os planos de ataque daquele rei pagão. Aborrecido com isso, o rei da Síria manda soldados para prender Eliseu. Os soldados se dirigem a Dotã, cidade onde o profeta estava, e a cercam. Então, o texto nos diz que o moço que servia Eliseu, sem saber de nada, acordou cedo e saiu dando de cara com o exercito do rei da Síria. Imagine a aflição daquele rapaz. Assim diz o texto:

 

Tendo-se levantado muito cedo o moço do homem de Deus e saído, eis que tropas, cavalos e carros haviam cercado a cidade; então, o seu moço lhe disse: Ai! Meu senhor! Que faremos? Ele respondeu: Não temas, porque mais são os que estão conosco do que os que estão com eles. Orou Eliseu e disse: SENHOR, peço-te que lhe abras os olhos para que veja. O SENHOR abriu os olhos do moço, e ele viu que o monte estava cheio de cavalos e carros de fogo, em redor de Eliseu (2Rs.6.15-17)

 

A ansiedade se assemelha em muito ao que aconteceu na narrativa acima. A preocupação do moço que servia o profeta Eliseu decorria de seu olhar deficiente. O moço via o exército adversário, mas não conseguia ver a presença do exército de Deus que estava ali para impedir que os inimigos fizessem qualquer mal a eles. No momento em que o moço conseguiu contemplar toda a realidade, então seu coração foi acalmado. Não havia o que temer, pois Deus havia enviado seus anjos para proteger seus servos.

 

A ansiedade decorre de um olhar deficiente que não está contemplando toda a realidade. Quando aquilo que aflige o coração é solucionado, então o coração volta a seu sossego. A incredulidade da ansiedade funciona da seguinte forma: Se surge a fome e não há comida em casa nem dinheiro na carteira, então começa o desespero cogitando a possibilidade de morrer de fome (preocupação demasiada e medo desmedido). Mas, se surgir a fome enquanto a despensa está cheia ou a carteira com dinheiro suficiente, o coração segue seu caminho com tranquilidade. Promessas não são suficientes para aquietar um coração ansioso, porque este coração se guia por aquilo que vê, apenas por aquilo que é palpável.

 

A versão grega do Antigo Testamento faz uso do verbo “andar ansioso” (merimnáo), utilizado por Paulo em Filipenses 4.6, para se referir às pessoas preocupadas com alguma coisa. Êxodo 5.9 fala dos hebreus ansiosos tanto com o fardo de Faraó quanto com desejo de ir embora. 2 Samuel 7.10 (1Cr.17.9) diz respeito à ansiedade decorrente das guerras. No Salmo 38.18, Davi fala de uma ansiedade decorrente de seus pecados. Em Provérbios 14.23, a versão grega diz que todo trabalho tem ansiedade (preocupações).

 

No Novo Testamento, Paulo usa o termo para se referir às preocupações com a vida (1Co.7.32-34; Fp.2.20) e até sobre o cuidado de um irmão sobre o outro (1Co.12.25). A ênfase do apóstolo, à igreja, sobre a ansiedade é: Não tenham preocupações com a vida. Olhem para Cristo, a fim de viverem para Cristo (Cl.3.1-4), e confiem nas promessas de Deus, pois o Senhor sempre cuida daqueles que o amam (Fp.4.6-7).

 

Os Salmos 42 e 43 nos mostram o coração de alguém com sintomas de ansiedade: preocupação e medo. Longe de estar com depressão (como alguns pensam), o autor desses salmos nos revela sua fraqueza diante da tribulação enfrentada, porque seu coração está demasiadamente ansioso pelo retorno à Terra Santa e pelo culto oferecido a Deus no Templo, pois os inimigos atacaram Jerusalém e o fizeram tal como “forasteiro e peregrino” (Sl.42.12). Consciente de que não lhe cabe a ansiedade, o autor se dirige à própria alma, dizendo: “Por que estás abatida, ó minha alma? Por que te perturbas dentro de mim? Espera em Deus, pois ainda o louvarei, a ele, meu auxílio e Deus meu” (Sl.42.5,11).

 

Para vencer a ansiedade de sua alma, o autor canta louvores a Deus e o busca em oração, lembrando assim que Deus é Senhor dos céus e da terra, não importando onde estejam seus filhos (Sl.42.8; Sl.43.3). O salmista se lembra que o Senhor é a esperança do aflito e está pronto para socorrer todo aquele que o invoca sinceramente de todo seu coração (Sl.42.11), pois o Senhor é poderoso contra os adversários, uma fortaleza contra “a opressão dos inimigos” (Sl.43.2). Portanto, não haveria razão para a ansiedade de sua alma, mesmo que tudo a seu redor estivesse em ruinas.

 

Diante de tais lembranças, o Salmo 43 nos revela como a alma de seu autor se aquieta, tendo encontrado em Deus a paz necessária para descansar o coração e esperar pacientemente pelo auxílio divino: “Então, irei ao altar de Deus, de Deus, que é a minha grande alegria; ao som da harpa eu te louvarei, ó Deus, Deus meu” (Sl.43.4). A ansiedade é substituída por uma plena confiança na graça e no poder do Senhor, trazendo paz ao coração daquele que antes estava aflito. Tudo isso, porque a alma do autor desses Salmos atendeu à Palavra de Deus, a fim de experimentar a eficácia do consolo divino.

 

Como os filhos de Corá, muitos, em nossos dias, são tomados pela ansiedade quando alcançados por grandes problemas. Facilmente o coração se esquece das maravilhas operadas e reveladas por Deus nos dias passados. A alma olha para as circunstâncias, ignorando a presença real do Senhor no meio de seu povo, pois Ele prometeu jamais desamparar sua igreja (Mt.28.20). Na fraqueza do coração, o homem se deixa levar pela ansiedade até por pequenas coisas, tais como a expectativa da chegada de algo ou alguém, pela compra de alguma coisa, pelo começo de alguma nova etapa da vida etc. Assim, muitos cristãos vivem sem paz em seu coração, lutando diariamente contra a ansiedade que deveria ter sido vencida pela plena confiança em Cristo que manifesta sua real presença diariamente no meio de sua amada igreja.

 

Mas, não é assim que o cristão deve viver. Dentre as muitas bênçãos advindas por meio de Cristo para seu povo (Ef.1.3), encontra-se “a paz de Deus que excede todo entendimento” (Fp.4.7) capaz de guardar a mente e o coração da ansiedade. E para desfrutar dela, é preciso lançar a vida por completo nas mãos do Senhor, confiando em suas santas e fiéis promessas. É necessário que o coração tenha plena convicção da presença real de Deus a seu lado, como disse Davi: “Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte, não temerei mal nenhum, PORQUE TU ESTÁS COMIGO; o teu bordão e o teu cajado me consolam” (Sl.23.4). Cristo não pode ser apenas uma ideia em seu coração. Ele precisa ser real, tão real quanto qualquer pessoa com a qual você se relaciona em seu dia a dia.

 

Quando a realidade da presença de Deus for experimentada pela sua mente e seu coração, então ambos irão descansar, ainda que fortes tempestades esbravejem (Mt.8.23-27). Por isso, o autor de Hebreus nos diz que “a fé é a certeza de coisas que se esperam, a convicção de fatos que se não veem” (Hb.11.1) e, então, exorta os destinatários a olharem “firmemente para o Autor e Consumador da fé, Jesus” (Hb.12.2). Portanto, pare de se preocupar e contemple a realidade de que Cristo está continuamente no meio de sua igreja, cuidando com graça e amor de cada um daqueles pelos quais Ele morreu e ressuscitou. Olhe para Cristo e, então, diga para sua alma: “Por que estás abatida, ó minha alma? Por que te perturbas dentro de mim? Espera em Deus, pois ainda o louvarei, a Ele, meu auxílio e Deus meu” (Sl.43.5).

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