Daniel (1.1-21) - Sede santos, porque Eu Sou Santo

March 25, 2020

 

“Resolveu Daniel, firmemente, não se contaminar com as finas iguarias do rei, nem com o vinho que ele bebia; então, pediu ao chefe dos eunucos que lhe permitisse não se contaminar.” (Dn.1.8).

 

Nem sempre a vida é como gostaríamos. Algumas vezes a culpa pelas desventuras é de nossas próprias escolhas e ações. Então, colhemos aquilo que plantamos. Outras vezes, não. Os dias maus nos sobrevêm por diversas outras razões que, muitas vezes, nem mesmo podem ser explicadas. De um modo ou de outro, problemas, tribulações e desventuras, aparecem diversas vezes no decurso da vida de uma pessoa. Podemos afirmar, com certeza, que não há ser humano que não tenha dias maus, ainda que esses dias maus possam ser uma crise existencial, uma luta consigo mesmo. Isso se dá por causa do pecado que contaminou não apenas toda a raça humana como, também, todo o universo. Se, um dia, alguém dissesse que um meteoro colidiria com a Terra, não deveríamos considerar impossível. Afinal, estamos vivendo em uma criação que está “sujeita à vaidade”, presa no “cativeiro da corrupção” e que, “a um só tempo, geme e suporta angústias até agora” (Rm.8.20,21,22).

 

O mau dia chegou também para Daniel e seus três amigos: Hananias, Misael e Azarias (Dn.1.1,6). Não foi sem causa nem é de difícil explicação a queda de Judá diante do Império Babilônico. Os profetas Isaías, Oséias, Joel, Amós, Miquéias, Sofonias e, por último, Jeremias haviam profetizado a queda de Judá por causa de seus muitos pecados. Mesmo assim, o povo que teve, aproximadamente, duzentos anos para refletir, se arrepender de seus pecados e mudar seu comportamento diante do Senhor, ignorou as muitas advertências recebidas da parte de Deus até que chegou o grande dia do castigo divino. Portanto, a investida da Babilônia contra Judá e sua inevitável vitória sobre o povo de Deus faziam parte do plano do Santo de Israel. Sim, o Senhor entregou seu próprio povo para uma nação pagã, a fim de castiga-lo severamente, pois Israel desprezara seu Deus por várias gerações e o NOME do Senhor estava sendo blasfemado entre os gentios por causa deles (Is.52.5).

 

Todavia, é fundamental que destaquemos o fato de que o Senhor faz precisa distinção entre os justos e os injustos. Daniel, Hananias, Misael e Azarias eram tão judeus quanto os demais que foram mortos na judeia. Eles viram o dia da tribulação sobrevir a seu povo e, também, foram deportados para o cativeiro da Babilônia como muitos outros. Porém, não foram tratados por Deus como ímpios ou rebeldes, pois o Senhor, que conhece o coração de todos os homens, “distingue para si o piedoso” (Sl.4.3), e bem sabia que aqueles jovens eram tementes ao Senhor. O olhar de Deus para o homem não é superficial. Ele nos vê por dentro e nos conhece como realmente somos (Sl.139), não apenas como mais um no meio de uma multidão. Por isso, mesmo que a nação inteira viesse a pagar pelos pecados da maioria, o Senhor trataria com distinção os que fossem realmente justos a seus olhos (Jr.27.5). Esse fato é muito importante, e o livro de Daniel destaque isso, para que os verdadeiros homens e mulheres de Deus não venham a sucumbir ao desanimo de uma vida sem esperança.

 

Deus sempre distingue para si os justos (nesse momento, não estamos tratando sobre a Depravação Total – Rm.3.10-18). Podemos ver isso em diversos personagens no decurso da história redentora. Ainda que fazendo parte de uma linhagem de homens de Deus, Gênesis 5 nos conta que o Senhor tomou para si um homem em especial, Enoque (Gn.5.22,24). Deus não trasladou todos os filhos de Sete, mas apenas um em especial por andar de um modo especial com o Senhor (Hb.11.5). No capítulo seis de Gênesis, somos informados que “a maldade do homem se havia multiplicado na terra” (Gn.6.5) e que “a terra estava corrompida à vista de Deus e cheia de violência” (Gn.6.11). Contudo, Deus distinguiu para si um único homem (e com ele a família): Noé, “homem justo e íntegro entre os seus contemporâneos” (Gn.6.9). Em certo momento da caminhada de Abraão, o Senhor lhe apareceu e lhe contou sobre a multiplicação dos pecados de Sodoma e Gomorra (Gn.18.20-21). Em meio ao diálogo, o Senhor prometeu, a Abraão, poupar uma cidade inteira por amor a, apenas, dez justos que houvesse nela (Gn.19.32). E como se não bastasse toda essa manifestação de misericórdia, quando os anjos foram a Sodoma e encontraram a Ló, homem justo, o arrastaram para fora da cidade, a fim de que não morresse junto aos demais (Gn.19.16-22). Deus distinguiu para si um homem justo no meio de uma cidade completamente pervertida. E o mesmo acontece em toda a história redentora. Essa comum distinção deve nos remeter para Cristo, distinguido dentre todos os homens, o único verdadeiramente justo de toda a humanidade, do qual o Senhor aceitou o perfeito sacrifício em favor dos que creem (Jo.3.16).

 

O marco inicial do livro de Daniel é a invasão do rei Nabucodonosor a Jerusalém, levando para a Babilônia tanto os despojos quanto algumas pessoas cativas (Dn.1.2). Daniel deixa claro que o Senhor havia entregado seu povo nas mãos do imperador. O que estava acontecendo vinha da parte de Deus, portanto era sua perfeita vontade sendo manifesta na vida de seu povo com propósito determinado: purificar seu povo e glorificar seu nome em toda a terra. Ainda no versículo 2, Daniel nos diz que Nabucodonosor levou “alguns dos utensílios da Casa de Deus” “para a casa do seu deus” conforme Habacuque havia previsto (Hc.1.15-16). Desse modo, os babilônios atribuíram ao seu deus a vitória sobre o povo do Senhor, exatamente o que Habacuque temia que acontecesse. Portanto, até o momento, podemos dizer que o Deus de Israel não foi glorificado com a disciplina aplicada a seu povo. Antes, o Senhor teve seu nome diminuído perante os deuses pagãos, pois aquilo que havia sido consagrado a Ele, para uso exclusivo no Templo, passou a ser dedicado a um ídolo da vil imaginação de pecadores.

 

Deus se deixou ser humilhado, a fim de cumprir com seu propósito de purificar seu povo. Portanto, assim como acontecerá com Cristo (Fp.2.5-8), Deus se esvaziou de sua glória para que sua perfeita vontade fosse cumprida e nela Seu Santo NOME viesse a ser engrandecido perante todos. O esvaziamento de Deus não havia sido compreendido por Habacuque e, por isso, foi questionado pelo profeta (Hc.1.12-17). Costumamos ser guiados pelo que vemos. Mas, seria por meio do auto esvaziamento que o Senhor daria seguimento ao maravilhoso e grandioso plano redentor que não somente beneficiaria seu povo, mas glorificaria sobremaneira seu Santo NOME. Desse modo, podemos dizer que esse auto esvaziamento de Deus nos aponta para a humilhação de Cristo que “a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo, tornando-se em semelhança de homens; e, reconhecido em figura humana, a si mesmo se humilhou, tornando-se obediente até à morte e morte de cruz” (Fp.2.7-8).

 

A Escritura nos revela que a humilhação e a negação de si mesmo é o caminho para a glorificação, como disse Jesus: “se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, tome a sua cruz e siga-me” (Mt.16.24). Foi esse o caminho que Deus escolheu para ser glorifica entre os homens nos dias do cativeiro de Judá. O livro de Daniel nos revela como Deus foi engrandecido entre todos, tendo sido, inicialmente, humilhado perante todos (Dn.1-5). Cristo percorreu o mesmo caminho esvaziando-se de sua glória para receber toda honra e louvor após sua vitória na cruz do Calvário: “Digno é o Cordeiro que foi morto de receber o poder, e riqueza, e sabedoria, e força, e honra, e glória, e louvor” (Ap.5.12). E esse é o caminho que Deus quer que sua igreja percorra, esvaziando-se de si mesma (1Ts.1.3) para que Deus a exalte sobremaneira por ocasião da volta de Cristo Jesus.

 

Tiago 4.6,10  Antes, ele dá maior graça; pelo que diz: Deus resiste aos soberbos, mas dá graça aos humildes [...] Humilhai-vos na presença do Senhor, e ele vos exaltará

1 Pedro 5.5-6  Rogo igualmente aos jovens: sede submissos aos que são mais velhos; outrossim, no trato de uns com os outros, cingi-vos todos de humildade, porque Deus resiste aos soberbos, contudo, aos humildes concede a sua graça. Humilhai-vos, portanto, sob a poderosa mão de Deus, para que ele, em tempo oportuno, vos exalte

 

O livro de Daniel é fundamental para testemunho de como Deus glorificou seu NOME em meio a um império pagão, enviando seus fiéis filhos para o coração do reino, a cidade da Babilônia (Dn.4.29). Quatro personagens se destacam no livro: Daniel, Hananias, Misael e Azarias. Eles estavam entre os muitos outros judeus que foram transportados para a Babilônia (cf. Ed.2.1; Ne.7.6; Et.2.6; Jr.29; Ez.1.1; Dn.6.13) e por meio deles, o NOME do Senhor foi engrandecido através de diversas manifestações de seu poder. Sem armas nem carros de batalha, sem exércitos nem valentes de guerra, sem tomar cidades nem derramar sangue Deus engrandeceu seu Santo NOME no meio da Babilônia, vindicando sua Santidade, sua exclusividade e seu glorioso poder. Após alguns anos, todos saberiam que o Deus de Israel é o Senhor de toda a terra e que a vitória dos babilônicos era resultado da vontade de Deus, conforme revelada por seus profetas do passado.

 

O profeta Daniel nos conta que ele e seus três amigos foram entregues aos cuidados de Aspenaz, chefe dos eunucos (Dn.1.3), a fim de serem cuidados e preparados para “assistirem no palácio do rei” (Dn.1.4). O imperador havia ordenado que os jovens cativos fossem bem cuidados para servirem em sua presença (Dn.1.5). E como parte da preparação, esses jovens deveriam se acostumar a comer das “finas iguarias da mesa real e do vinho” do imperador (Dn.1.5). Aparentemente, poderíamos considerar como privilégio aquilo que estava sendo concedido a eles. Seria uma bênção de Deus? Será que o Senhor estava abençoando aqueles três jovens, fazendo-os partilhar da comida da mesa do rei? Daniel e seus três amigos não veem a questão desse modo. Mas, por quê? O texto não nos diz as razões exatas que levaram os quatro jovens a decidirem “não se contaminar com as finas iguarias do rei, nem com o vinho que ele bebia” (Dn.1.8). Porém, conforme Baldwin[1], podemos levantar algumas sugestões: 1) Os alimentos costumavam ser oferecidos aos deuses, de modo que Daniel e seus amigos poderiam não querer partilhar de comidas oferecidas aos deuses pagãos. 2) Não havia distinção entre os animais limpos e os animais imundos. Sendo assim, dentre os alimentos poderia haver comidas proibidas aos judeus, conforme a Lei de Moisés (Lv.11; Dt.14). 3) Eles não queriam vínculos fraternos com o imperador, nem desejavam se sentir devedores ao rei por partilharem da mesma comida servida a ele. A questão é que Daniel e seus amigos estavam no meio de um povo pagão que tinha deuses falsos e hábitos impuros, e eles não queriam se contaminar com nada disso. Por isso, decidiram se privar dos “privilégios” que lhes foram concedidos, para se consagrarem a uma vida simples, mas fielmente dedicada ao Senhor.

 

A decisão de Daniel e os três amigos (Dn.1.11-12) revela-nos o caráter deles. Quatro jovens decididos a glorificar o NOME do Senhor mesmo em meio a uma terra estranha, longe dos pais e de qualquer outra pessoa que pudesse fiscalizar o comportamento deles. Além disso, eles decidiram honrar o NOME do Senhor mesmo tendo Deus entregue seu povo para ser brutalmente castigado por uma nação pagã, a Babilônia. Esse “simples” gesto revela bastante sobre a firmeza, temor e sabedoria do coração deles. Deus continuava sendo o único Senhor lá na Babilônia e deveria ser glorificado por seu povo, mesmo tendo sido alvo de castigo. Deus não mudou, foi o povo que deixou de servi-lo de modo agradável. O Criador dos céus e da terra permanecia sendo o mesmo eternamente e deveria ser tratado da mesma forma como sempre exigiu daqueles que se achegam a Ele. Desse modo, Daniel e seus amigos se mostram jovens tementes ao Senhor que se desviam do mal, e estavam prontos para servir a Deus, testemunhando a santidade do Senhor em meio a uma terra de homens pagãos.

 

O que é necessário para que você faça aquilo que é bom e agradável a Deus? Será que é preciso a presença e ordem dos pais, fiscalizando suas ações? Ou seria necessário o pastor advertir e insistir para que a vontade revelada de Deus seja colocada em prática: ler a Bíblia, orar, evangelizar, dar bom testemunho, cumprir com os compromissos, amar a igreja etc.? O que Deus requer de seu povo não é uma vida religiosa aparente, mas um coração verdadeiramente consagrado a Ele por meio da legítima fé no Senhor e Salvador Jesus. Não importa o que aconteça nem onde estejamos, Deus é Deus e sempre será. Sua Palavra permanece a mesma e sua graça não é diminuída. A ordem é que sejamos sal da terra e luz do mundo (Mt.5.13-16) onde estivermos para que o Santo NOME do Criador seja glorificado perante os homens de um mundo que “jaz no maligno” (1Jo.5.19). Portanto, o Senhor não está esperando que tenhamos aparência de piedade, mas que tenhamos um coração piedoso, para que não somente nossas atitudes sejam agradáveis a Ele, mas, também, que “tudo o que é verdadeiro, tudo o que é respeitável, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, se alguma virtude há e se algum louvor existe, seja isso o que ocupe o vosso pensamento” (Fp.4.8).

 

O Senhor colaborou com a decisão de Daniel e seus amigos, fazendo-os mais saudáveis do que os demais. A ideia do texto não é nos ensinar que legumes e água são mais saudáveis do que carne e vinho, mas que o Senhor estava com eles (Gn.39.2; Mc.16.20; Hb.2.4). O propósito de Daniel não era ser mais saudável que os demais, mas “não se contaminar” (Dn.1.8). Portanto, devemos entender a saúde deles não apenas como um resultado de alimentos saudáveis, mas como o agir do Senhor aprovando a atitude deles, a fim de que dessem bom testemunho da santidade do Senhor que separou seu povo dentre todos os povos da terra para que fosse um povo santo (Ex.33.16; Lv.11.44-45). Dentro da mesma ideia encontram-se os jejuns de Moisés (Ex.34), Elias (1Rs.19) e Jesus (Mt.4). Ignorar esse propósito do texto reduz a beleza da decisão dos personagens e da presença da ação divina em corroborar com o testemunho de seus servos fiéis. Por isso, eles não somente estavam com melhor aparência, como, também, mostraram-se mais sábios do que todos os outros, porque “Deus deu o conhecimento e a inteligência em toda cultura e sabedoria” para eles (Dn.1.17-21).

 

Cristo conviveu com uma geração má e perversa, mas viveu uma vida santa e agradável a Deus (Mt.12.39; Hb.4.15). Também, mostrou-se o homem mais sábio do mundo (Mt.12.42; 13.54). Jesus decidiu se consagrar ao Senhor apartando-se de tudo o que era mau, razão para não compactuar com os líderes político-religiosos e doutores de seus dias: saduceus, fariseus, escribas (Mt.23). Cristo andou com prostitutas, mas se manteve puro e santo, guiando-as à santidade de Deus por meio do ensino da Palavra do Senhor. Jesus andou com publicanos, mas manteve-se íntegro e reto, honesto e justo em todas as suas palavras e atitudes, atraindo-os a uma vida temente ao Senhor (Lc.19). Desse modo, Cristo foi sal da terra e luz do mundo em sua geração e atraiu todos ao Pai (Jo.17), chamando-os ao arrependimento e mudança de vida (Mt.4.17). E tendo vencido o pecado, a morte e o diabo por nós, Jesus nos deu de seu Espírito Santo para nos capacitar a viver uma vida santa e agradável ao Senhor, assim como Ele viveu (2Co.3.18; Gl.5.22-23; 1Pe.1.16). Por essa razão, todas as cartas do Novo Testamento possuem uma aplicação prática da fé cristã, chamando a igreja a uma vida piedosa (Rm.12-16; Gl.5-6; Ef.4-6; Fp.4; Cl.3-4; 1Ts.4-5; 2Ts.3 etc.).

 

Você já tomou a decisão de viver uma vida separada para Deus! Ser cristão é ter sido comprado pelo precioso sangue do Cordeiro, a fim de pertencer total e exclusivamente a Deus. É desse modo que o cristão glorifica a Deus em um mundo que “jaz no maligno” (1Jo.5.19). Os desafios que surgem concedem ao cristão a oportunidade de dar firme testemunho do operar do Senhor tanto dentro quanto fora da igreja, preservando seu povo e qualificando a noiva do Cordeiro até o dia em que o Senhor Jesus voltará. Então, siga o exemplo de Daniel e seja firme na decisão de glorificar a Deus não se misturando com as obras malignas do mundo.

 

 

 

[1] BALDWIN, Joyce G. Daniel: Introdução e Comentário. São Paulo: Editora Vida Nova, 2008, p.88

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