Daniel (2.1-49) - Senhor sobre tudo e todos

March 27, 2020

 

 

“Disse Daniel: Seja bendito o nome de Deus, de eternidade a eternidade, porque dele é a sabedoria e o poder; é ele quem muda o tempo e as estações, remove reis e estabelece reis; ele dá sabedoria aos sábios e entendimento aos inteligentes” (Dn.2.20-21)

 

Qual o tamanho da soberania de Deus? Ainda que o Senhor seja grande na vida de um cristão, a glória dEle não pode ser restringida a seu relacionamento com Ele. Deus é Senhor de tudo e todos, até daqueles que não querem que Ele seja (Lc.19.12-27). Por essa razão, todos serão julgados em sua presença (Mt.25.31-46), pois não há outro Rei, não há outro Senhor; não há uma só criatura e nem mesmo um só lugar, por menor que possa ser e por mais distante que possa estar, sobre o qual Deus não seja o Senhor absoluto. Deus é o Rei sobre as trevas e sobre a luz, é Senhor do inferno e do céu, é Criador daqueles que o amam e de todos os que o odeiam. Ele é o Soberano de todo o universo visível e invisível, “porque dele, e por meio dele, e para ele são todas as coisas. A ele, pois, a glória eternamente. Amém!” (Rm.11.36).

 

Deus logo revelaria sua soberania ao grande imperador Nabucodonosor. O capítulo dois do livro do profeta Daniel nos revela como Deus conseguiu perturbar a alma de Nabucodonosor, invadindo o mais profundo e íntimo de seu ser para dar-lhe um sonho que muito o atormentou. O rei ficou tão atordoado com o sonho, que fez um pedido jamais exigido por alguém (Dn.2.10). Em sua arrogância, Nabucodonosor pediu aos magos, encantadores, feiticeiros e sábios dentre os caldeus que revelassem o sonho que ele teve e o respectivo significado, uma exigência presunçosa e sem qualquer bom senso. Quem teria o poder de sondar a mente dos homens? “Não há mortal sobre a terra que possa revelar o que o rei exige” (Dn.2.19), lhe disseram todos. Mas, a resposta não foi suficiente para acalmar o coração do imperador que ordenou a morte de todos os sábios em seu reino. Nabucodonosor se considerava tão grande, mas não conseguia dominar nem mesmo seus ânimos; se achava tão poderoso, mas era incapaz de compreender seus sonhos. Deus começou a glorificar a si mesmo e faria isso por meio de, apenas, quatro humildes servos fiéis e um sonho.

 

Ninguém era capaz de atender às exigências do imperador e nem mesmo ele podia interpretar o sonho atordoador que teve. Diante do impraticável, tendo todos reconhecido a impossibilidade de resolver a questão, o Senhor se ergue para glorificar seu Poderoso NOME perante o império. Daniel se adiantou para impedir a morte dos sábios da Babilônia (Dn2.14), dentre os quais estariam eles: Daniel, Hananias, Misael e Azarias (Dn.2.18). O profeta roga ao rei que lhe dê um tempo determinado, a fim de que a ordem do imperador fosse satisfeita. Enquanto isso, Daniel pede a Hananias, Misael e Azarias que orem pedindo “misericórdia ao Deus do céu sobre este mistério” (Dn.2.18). Ele sabia que somente o Senhor poderia revelar o sonho do rei e, parece-nos que Daniel também sabia que o sonho realmente provinha de Deus no propósito de revelar alguma coisa importante para todos. Ao recorrer à oração, Daniel reconhece a plena dependência de Deus e, também, professa a certeza de que não há impossíveis para Deus (Mc.10.27; Lc.1.37). E nisso o Senhor é glorificado diante dos filhos dos homens, como nos diz o Salmo 67: “Seja Deus gracioso para conosco, e nos abençoe, e faça resplandecer sobre nós o rosto; para que se conheça na terra o teu caminho e, em todas as nações, a tua salvação. [...] Abençoe-nos Deus, e todos os confins da terra o temerão” (Sl.67.1,7).

 

A glorificação do NOME do Senhor é iniciada na declaração do profeta que, tendo recebido a revelação do mistério, “numa visão de noite, bendisse o Deus do céu” (Dn.2.19):

 

Disse Daniel: Seja bendito o nome de Deus, de eternidade a eternidade, porque dele é a sabedoria e o poder; é ele quem muda o tempo e as estações, remove reis e estabelece reis; ele dá sabedoria aos sábios e entendimento aos inteligentes. Ele revela o profundo e o escondido; conhece o que está em trevas, e com ele mora a luz. A ti, ó Deus de meus pais, eu te rendo graças e te louvo, porque me deste sabedoria e poder; e, agora, me fizeste saber o que te pedimos, porque nos fizeste saber este caso do rei. (Dn.2.20-23)

 

Por pior que fosse ser governado por um homem tirano, arrogante, soberbo, presunçoso e sem sabedoria (Nabucodonosor), Daniel reconhece que Deus estava no controle do mundo e, se quisesse, no devido tempo poderia mudar tudo. Os homens não são exaltados por seu muito poder nem força, mas por vontade divina. Por essa razão, também, Paulo nos conduz à oração quando trata sobre o assunto, política: “Antes de tudo, pois, exorto que se use a prática de súplicas, orações, intercessões, ações de graças, em favor de todos os homens, em favor dos reis e de todos os que se acham investidos de autoridade, para que vivamos vida tranquila e mansa, com toda piedade e respeito. Isto é bom e aceitável diante de Deus, nosso Salvador” (1Tm.2.1-3). Na ocasião em que Daniel bendiz o NOME do Senhor, ele já sabia qual o sonho do imperador e seu significado. Portanto, Seu louvor a Deus está intimamente relacionado ao conteúdo e interpretação do sonho: o Senhor é o Soberano de toda a terra, “quem muda o tempo e as estações, remove reis e estabelece os reis”. Essa convicção dá paz ao coração daqueles que são governados, pois acima de todos sempre se encontra o Senhor, Deus bom e justo, santo e fiel; “sabendo que o Senhor, tanto deles como vosso, está nos céus e que para com ele não há acepção de pessoas”. (Ef.6.9).

 

Ainda que tenha sido agraciado com a sabedoria para interpretar o sonho, Daniel não se exalta perante o demais sábios nem diante do imperador. O profeta sabe que tudo vem do Senhor e que nenhum mérito poderia ser atribuído a si mesmo, por isso afirma: “Há um Deus no céu, o qual revela os mistérios” (Dn.2.28) “e a mim me foi revelado este mistério, não porque haja em mim mais sabedoria do que em todos os viventes” (Dn.2.30). A humildade de Daniel foi fundamental para que o NOME de Deus fosse realmente engrandecido. Caso contrário, Daniel seria exaltado no lugar do Senhor e a glória que pertencia a Deus seria atribuída a ele, desonrando, assim, Àquele de quem vem todo conhecimento e sabedoria (Tg.1.5). Esse é um grande problema presente no modismo da fama gospel de nossos dias, em que doutores, músicos e preletores fazem de tudo para difundir sua própria imagem, com caras bonitas e imagens bem-feitas, um sensacionalismo narcisista trasvestido de piedade, que dificilmente desagradará pecadores. Assim, mesmo quando pregam aquilo que é certo e bom, terminam por atrair as pessoas para si mesmo, sem que elas realmente deem glórias a Deus. Razão para estarmos vivendo em uma guerra denominacional confusa, e até ridícula em muitos casos, como nos disse o apóstolo Paulo: “Refiro-me ao fato de cada um de vós dizer: Eu sou de Paulo, e eu, de Apolo, e eu, de Cefas, e eu, de Cristo. Acaso, Cristo está dividido? Foi Paulo crucificado em favor de vós ou fostes, porventura, batizados em nome de Paulo?” (1Co.1.12-13).

 

O profeta Isaías, aproximadamente duzentos anos antes, proferiu um “motejo contra o rei da Babilônia” (Is.14.4), anunciando sua queda e humilhação, pois com tirania e opressão destruía povos e dizia em seu coração: “Eu subirei ao céu; acima das estrelas de Deus exaltarei o meu trono e no monte da congregação me assentarei, nas extremidades do Norte; subirei acima das mais altas nuvens e serei semelhante ao Altíssimo” (Is.14.13-14). Nabucodonosor personifica bem o retrato falado por Isaías, ainda que não tenhamos como afirmar que o profeta estivesse se referindo, com certeza, a este imperador em especial. Todavia, podemos considerar que Isaías estava se referindo aos imperadores da Babilônia em geral (como o livro de Apocalipse faz em relação à besta – Ap.13//17), um provável orgulho étnico e cultural, bem presente no poder político da nação. Algo bastante comum entre os grandes imperadores de muitos povos, não só do passado como, também, em nossos dias (Mt.20.25).

 

Vivemos em constante guerra política de múltiplas divisões, ainda que sejam elas balizadas pelos parâmetros mais comuns da direita e da esquerda. O ser humano deseja poder sem limites, prazer sem controle, riquezas sem fim para se lambuzar até que a morte chegue e descubra seu ignorado destino: o inferno (Ap.20.11-15). Tal briga envolve gente grande, muito rica e capaz de absurdos para satisfazer sua própria vontade. Diante disso, aqueles que fazem parte do numeroso grupo das “pessoas normais”, “meros mortais”, podem ser alcançados por desanimo, tendo em vista a aparente impossibilidade de mudar o curso do mundo. O livro de Daniel é muitíssimo confortador e fortalecedor para aqueles que desejam dias melhores, “para que vivamos vida tranquila e mansa, com toda piedade e respeito” (1Tm.2.2), pois nos fala sobre o Senhorio de Deus acima de todas as nações. Não importa quão grandes sejam aqueles que querem dominar o mundo, Deus sempre será o Soberano de toda a Terra. Por essa razão, as orações de quatro homens, apenas, é mais eficaz que todas as artimanhas dos poderosos da terra, pois é Deus quem decide o destino do mundo e Ele ama sua igreja, de modo “que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito” (Rm.8.28).

 

O sonho de Nabucodonosor revela a soberania do Senhor sobre os reinos e sobre o curso da humanidade. Do Senhor provinha a grandeza do rei, “a quem o Deus do céu conferiu o reino, o poder, a força e a glória” (Dn.2.37). Caso contrário, Nabucodonosor não passaria de um homem comum. Mas, por que Deus revelou o sonho ao rei em vez de falar diretamente por meio de seu profeta? Em uma terra de homens pagãos, a Palavra do Senhor, Deus de Israel, não teria qualquer valor. Quando Moisés e Arão foram até Faraó, a fim de anunciar a Palavra de Deus, o rei do Egito ridicularizou a mensagem e rejeitou a ordem divina para que libertasse o povo de Israel (Ex.5.1-9). A dureza de coração do homem o impossibilita reconhecer naturalmente a voz do Senhor. Então, Deus manifesta sua real presença por meio de sinais miraculosos de poder, como fez com o Egito (Ex.5-15). Esse é o propósito dos sinais: chamar a atenção dos pecadores para a Palavra do Senhor (Hb.2.4). Contudo, uma vez que Nabucodonosor fosse convencido de que Deus falara com ele, todos os demais seriam obrigatoriamente convencidos também. O modo como o cenário é historicamente construído não deixa brechas para qualquer dúvida sobre a presença da ação divina em meio a um povo pagão. Deus estava manifestando sua glória e graça, manifestando seu Senhorio e atraindo para si pecadores completamente alheios ao conhecimento do Senhor.

 

O sonho que Deus dera a Nabucodonosor tinha significado certo. O mesmo não acontece com todos os sonhos. Diferente do sonho dado a Faraó, nos dias de José (Gn.41), o sonho de Nabucodonosor era uma revelação sobre dias distantes. Nele, o Senhor revela cinco reinos que sucederiam um ao outro, consecutivamente, até a chegada de um “reino que não será jamais destruído” (Dn.2.44). O início do cumprimento daquilo que fora revelado no sonho se deu ainda nos dias de Daniel e foi registrado no livro do profeta (Dn.5.30), pois os Medo-Persas invadiram e conquistaram a Babilônia (Dn.6). Por meio do sonho de Nabucodonosor, Deus revelou a transitoriedade dos reinos dos homens contrastando com a permanência do reino de Deus que “subsistirá para sempre” (Dn.2.44). Os reinos passariam e com eles toda a glória dos homens e os enganos de seus falsos deuses, mas “Àquele que está sentado no trono e ao Cordeiro, seja o louvor, e a honra, e a glória, e o domínio pelos séculos dos séculos” (Ap.5.13). Enfim, o próprio imperador reconhece a glória do Deus de Israel, dizendo: “Certamente, o vosso Deus é o Deus dos deuses, e o Senhor dos reis, e o revelador de mistérios” (Dn.2.47).

 

Daniel e seus três amigos estavam longe de sua pátria, mas não distantes do Senhor, Criador dos céus e da terra. Portanto, a segurança do povo de Deus não deveria ser depositada em uma terra, mas naquele que a prometeu: Deus. O profeta João Batista advertiu sobre o perigo de se depositar confiança em elementos aparentes como a genealogia (Mt.3.7-10), pois o Senhor sonda os corações (Sl.139). A segurança do cristão encontra-se no amor de Deus (Rm.5.8), em sua graça superabundante (Rm.5.20), na justiça do justo e justificador Jesus e nas promessas feitas à igreja (Rm.8). Por isso, não importa quem estará no poder político das nações, Deus sempre estará acima de todos para governar tudo conforme sua “boa, agradável e perfeita vontade” (Rm.12.2; Rm.13). Sendo assim, a igreja deve desenvolver “prática de súplicas, orações, intercessões, ações de graças, em favor de todos os homens, em favor dos reis e de todos os que se acham investidos de autoridade” (1Tm.2.1-2), muito antes, e até em lugar de, pensar em agir e reagir às mais diversas conjunturas políticas. É assim que Deus é glorificado no curso do mundo e é desse modo que o cristão encontra paz em meio às crises políticas. Portanto, quando tudo estiver mal a seu redor, clame a Deus e descanse o coração naquele que é justo e não faz acepção de pessoas.

 

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