Jonas (2.1-10) - A oração de um náufrago

April 30, 2020

 

“Desci até aos fundamentos dos montes, desci até à terra, cujos ferrolhos se correram sobre mim, para sempre; contudo, fizeste subir da sepultura a minha vida, ó SENHOR, meu Deus!” (Jn.2.6)

 

Há momentos na vida em que nos sentimos como um náufrago, isolados em uma pequena ilha cercada por quilômetros de água em todos os lados, sem qualquer sinal de socorro humano por perto. Davi deve ter se sentido assim diversas vezes como nos mostram alguns de seus salmos (Sl.3-7): “Não me escondas, SENHOR, a tua face, não rejeites com ira o teu servo; tu és o meu auxílio, não me recuses, nem me desampares, ó Deus da minha salvação” (Sl.27.9). Também encontramos tal sentimento no Salmo 102: “Não durmo e sou como o passarinho solitário nos telhados” (Sl.102.7). E Paulo chegou a mencionar esse sentimento a Timóteo: “Na minha primeira defesa, ninguém foi a meu favor; antes, todos me abandonaram. Que isto não lhes seja posto em conta!” (2Tm.4.16). É bem provável que você também já tenha se sentido desse modo algumas vezes em sua vida: como um náufrago dentro do ventre de um grande peixe.

 

Deus poderia ter desamparado o profeta quando este foi lançado ao mar. Mas, tanto a misericórdia do Senhor seria manifesta na salvação de Jonas quanto seria revelado que os planos do Senhor iam muito além da vida daquele profeta, apontando para o futuro Messias prometido: “Deparou o SENHOR um grande peixe, para que tragasse a Jonas; e esteve Jonas três dias e três noites no ventre do peixe” (Jn.1.17). Nesse evento grandioso e gracioso promovido por Deus encontra-se uma tipologia sobre o intervalo entre a morte e ressurreição de Cristo. Os três dias e três noites em que Jonas passou no ventre do peixe profetizam tipologicamente o que aconteceria com o Messias. Por isso, quando os judeus pediram um sinal da parte de Jesus, Ele respondeu: “Uma geração má e adúltera pede um sinal; mas nenhum sinal lhe será dado, senão o do profeta Jonas. Porque assim como esteve Jonas três dias e três noites no ventre do grande peixe, assim o Filho do Homem estará três dias e três noites no coração da terra” (Mt.12.39-40).

 

Não importa o tipo de peixe que Deus usou para engolir Jonas; o importante é que a criação está a serviço do Senhor. O livro nos mostra Deus como o Criador que governa a criação conforme sua vontade. No capítulo primeiro, Deus move o vento e o mar para criar uma tempestade amedrontadora e, depois, dispões de um grande peixe para salvar Jonas do fundo do mar. No capítulo quatro, “fez o SENHOR Deus nascer uma planta” (Jn.4.6) para conforto do profeta e, no dia seguinte, “enviou um verme, o qual feriu a planta, e esta se secou” (Jn.4.7). Por fim, Deus faz soprar “um vento calmoso oriental” (Jn.4.8), mostrando, com tudo isso, que a terra é sua e que tudo existe para glorificar seu Santo Nome. Portanto, também o ser humano deveria viver para a glória de Deus: tanto Jonas quanto os marinheiros e os ninivitas, afinal “os céus e os céus dos céus são do SENHOR, teu Deus, a terra e tudo o que nela há” (Dt.10.14). Para isso, as misericórdias do Senhor são reveladas em todo o livro do profeta Jonas, chamando os homens a uma nova vida vivida totalmente para Deus.

 

O capítulo dois do livro é uma oração feita pelo profeta que estava na barriga do grande peixe. Não importa onde esteja um servo de Deus; dali, o Senhor o ouvirá: “Se eu digo: as trevas, com efeito, me encobrirão, e a luz ao redor de mim se fará noite, até as próprias trevas não te serão escuras” (Sl.139.11-12). Em sua aflição, Jonas clamou a Deus: “Na minha angústia, clamei ao SENHOR, e ele me respondeu; do ventre do abismo, gritei, e tu me ouviste a voz” (Jn.2.2). As tribulações costumam desempenhar papel importante na história redentora, formando um ambiente propício para a reflexão, amadurecimento e manifestação do poder do Senhor, como disse o apóstolo Paulo: “nos gloriamos nas próprias tribulações, sabendo que a tribulação produz perseverança; e a perseverança, experiência; e a experiência, esperança” (Rm.5.3-4). Portanto, não deveríamos desprezar os momentos de angústias que nos sobrevém, pois “com a tristeza do rosto se faz melhor o coração” (Ec.7.3). É na fraqueza e aflição que Deus costuma mostrar sua graça socorrendo seus servos que clamam humildemente, pois quando somos fracos, o Senhor mostra sua força em nós (2Co.12.7-10).

 

Não sabemos quantos quilômetros o barco havia se distanciado da terra, mas era longe e profundo o suficiente para que os marinheiros temessem serem lançados ao mar. O texto nos diz que Jonas ficou três dias e três noites no ventre do grande peixe, tempo aproximado da viagem até a praia onde o profeta seria cuspido. Portanto, Jonas teve tempo suficiente para se recompor, refletir e clamar a Deus, do ventre do peixe. Enquanto isso, aquele grande peixe se dirigia até a praia, obrigando o profeta a retornar para seu caminho de origem. Jonas vê a misericórdia de Deus naquele momento. O profeta poderia ter morrido, mas Deus o salvou; Jonas poderia ter se afastado de Deus, mas o Senhor o fez voltar; o profeta poderia ter sido substituído, mas Deus o obrigou a cumprir seu chamado cabalmente. Jonas reconhece que Deus o disciplinara por ter desobedecido à voz divina. A correção foi necessária; a ira de Deus era perfeitamente justa. Deus pesou sua mão sobre o profeta levando-o ao profundo abismo. Todavia, a misericórdia do Senhor não se apartou dele e Deus não o abandonou no abismo marítimo, pois “ao SENHOR pertence a salvação” (Jn.2.9).

 

O derramar da ira divina sobre Jonas, nos remete Àquele que sofreu toda a ira do Senhor para nos livrar da ira vindoura: Cristo. Assim como Jonas foi lançado ao mar para salvar a vida dos marinheiros pecadores aterrorizados pela tempestade (Jn.1.15), Jesus seria lançado ao seio da terra (morte) para livrar seu povo do aterrador castigo eterno (Jo.3.16,36). Aqueles três dias e três noites deveriam ser tipológicos, apontando para a descida do Filho de Deus até a morte e a ressurreição ao terceiro dia: “Desci até aos fundamentos dos montes, desci até à terra, cujos ferrolhos se correram sobre mim, para sempre; contudo, fizeste subir da sepultura a minha vida, ó SENHOR, meu Deus!” (Jn.2.6//Mt.12.40). Tudo parecia estar perdido, e o profeta sente a angústia de um desamparado (jogado fora) como Cristo clamou: “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?” (Mt.27.46). Mas, Deus ouviu o clamor do profeta e, do fundo do mar, de dentro do ventre do grande peixe, Jonas proclamou a salvação do Senhor.

 

Cada palavra de Jonas, em sua oração, nos conduz ao profundo sentimento de angústia de um profeta desobediente lançado ao mar por causa da dureza de seu coração. Jonas está arrependido por seu pecado e triste pelas consequências provenientes dele. Ele sente-se lançado para fora da presença do Senhor, assim como fora lançado para fora do barco. Seu pecado o afogara no abismo da morte assim como o profundo oceano o tragara; e sua rebeldia o deixara enrolado desde a cabeça até os pés como as algas marinhas presas por todo seu corpo. Jonas experimentou os profundos danos que o pecado traz ao pecador. O pecado destruiu seu coração trazendo-lhe angústias; o pecado corrompeu sua mente, levando-os às piores decisões; o pecado atribulou a sua alma com profundo desespero; o pecado o transformou em um náufrago dentro do ventre de um grande peixe. Foi ali, sem ter para onde ir, que Jonas percebeu a terrível condição que se encontrava.

 

Jesus também experimentou os terríveis danos de nossos pecados tanto em seu corpo quanto em sua alma. No Getsêmani, Jesus expressou sua profunda angústia, dizendo: “A minha alma está profundamente triste até à morte” (Mt.26.38), “e, estando em agonia, orava mais intensamente. E aconteceu que o seu suor se tornou como gotas de sangue caindo sobre a terra” (Lc.22.44). Em seguida, Cristo foi levado à cruz, sendo humilhado, cuspido e açoitado (Mt.27). Conforme as Palavras do profeta Isaías: “Ele foi oprimido e humilhado, mas não abriu a boca; como cordeiro foi levado ao matadouro; e, como ovelha muda perante os seus tosquiadores, ele não abriu a boca” (Is.53.7). A dimensão de seu profundo sofrimento era proporcional à profundidade da ofensa do pecado contra o Criador, o Senhor da glória. A redenção em Cristo Jesus é o perfeito retrato da seriedade do pecado contra o Senhor e a bela vitrine do grande amor de Deus que decidiu salvar o pecador.

 

Mas, o grande peixe não era um sinal de abandono; antes, de redenção. Deus não abandonara seu servo, mesmo que ele tenha sido desobediente. Jonas encontra esperança e redenção na providência do Senhor. Porém, não devemos pensar que a salvação divina se limitava apenas à conservação da vida daquele fujão. Deus chama o profeta a uma mudança de atitude também. Jonas deveria voltar e cumprir seu chamado (Jn.3.1-4), pregando a Palavra do Senhor à cidade de Nínive, conforme a ordenança divina; o profeta deveria repensar seus sentimentos, pensamentos e atitudes tão indispostos contra os ninivitas. Ele precisava de uma mudança não apenas de rumo, mas, principalmente, de coração. E em sua grande longanimidade, o Senhor suporta as muitas falhas do profeta conduzindo-o ao arrependimento e nova vida.

 

Pecado é coisa séria, portanto deve ser tratado com seriedade. E mesmo que não haja consequências imediatas, não significa que Deus se agrade dele nem que as consequências não virão. Se você não entendeu ainda quão horrível é o pecado, olhe para a cruz e veja o Filho de Deus sofrendo horrores, sagrando e tendo sua alma dilacerada por causa do pecado. Isso deve fazer você odiar o pecado tanto quanto Deus o odeia. Mas, não deixe de olhar bem fundo para a cruz, pois nela você também encontrará a graça divina que enviou seu Filho para nos substituir como Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo (Jo.1.29). Veja no sofrimento de Jonas tanto o castigo divino quanto o chamado do Senhor ao arrependimento. Então, reflita sobre seus sentimentos, seus pensamentos, suas palavras e suas ações, pois Deus sempre nos chama ao arrependimento e mudança de vida (Gl.2.20; Rm.12.1-2). Somente assim, tudo em você glorificará o Senhor, dando testemunho da santidade de Deus perante as pessoas a seu redor.

 

“Ao SENHOR pertence a salvação!” (Jn.2.9).

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