A malignidade da inveja


Estando, pois, o povo reunido, perguntou-lhes Pilatos: A quem quereis que eu vos solte, a Barrabás ou a Jesus, chamado Cristo? Porque sabia que, por inveja, o tinham entregado.” (Mt.27.17-18)


Há alguns dias, fomos despertados a escrever sobre um assunto que não havíamos cogitado antes: INVEJA. Confesso que, ao pensar sobre o assunto, sou instantaneamente direcionado para as relações mundanas dentre as quais é muito comum encontrarmos a inveja: em relações trabalhistas, em relações familiares, em relações acadêmicas, em relações com a vizinhança; em relações comerciais etc.


Todavia, pensando um pouco mais sobre o assunto, podemos ver que a inveja também pode entrar parasitalmente nas relações cristãs e corromper os sentimentos e as atitudes de muitos que estão dentro do corpo visível de Cristo: a igreja. O governador Pôncio Pilatos detectou entre os líderes religiosos dos judeus o sentimento de inveja como a causa principal para que tivessem entregue Jesus para ser morto na cruz do Calvário (Mt.27.18). Paulo advertiu às igrejas quanto ao cuidado com a inveja (Gl.5.26), afirmando, até, que alguns pregavam movidos por tal sentimento mesquinho (Fp.1.15). Por essa razão, consideramos apropriado tratar o assunto.


Para isso, precisamos, primeiro, definir o termo. O que é inveja? Conforme os dicionários, INVEJA é:


INVEJA

Desgosto, ódio ou pesar por prosperidade ou alegria de outrem. Cobiça

Desgosto provocado pela felicidade ou prosperidade alheia.

Desejo irrefreável de possuir ou gozar o que é de outrem.


Portanto, a inveja aponta para dois problemas. O primeiro problema é o descontentamento do próprio coração. Ou seja, a pessoa possuída de inveja não está satisfeita com a própria vida, caso contrário não estaria invejando a vida de outra pessoa. Se todas as pessoas estivessem, realmente, sempre contentes e gratas com o que recebem de Deus, elas não murmurariam nem teriam inveja das outras pessoas. Pessoas contentes e gratas seguem se dedicando enquanto esperam pacientemente que Deus lhes mande as bênçãos.


Outro problema da inveja é não ter prazer na felicidade do outro, como se a única pessoa que pudesse ter tudo (poder, dinheiro, bens, saúde, sucesso etc.) fosse a pessoa que está possuída de inveja. Todavia, a inveja parece escolher seus alvos, de modo que, normalmente, tem sempre pessoas específicas contra as quais se dirige a inveja. Isso mostra que a inveja esconde junto a si os sentimentos de raiva, ódio, frustração, rancor e coisas semelhantes contra alguém.


Por essa razão, o invejoso se levanta contra pessoas específicas, mesmo que haja muitas outras em condições até mesmo superiores. Algo maligno parece apertar “o botão de start” no coração do invejoso, e não é preciso haver alguma razão lógica para isso. Sentimentos são instáveis e confusos em uma criação caída por causa do pecado. E o invejoso, normalmente, não encontrará nem mesmo qualquer explicação para seus sentimentos mesquinhos.


O livro de Tiago nos adverte:


Tiago 3.13-18 Quem entre vós é sábio e inteligente? Mostre em mansidão de sabedoria, mediante condigno proceder, as suas obras. 14 Se, pelo contrário, tendes em vosso coração INVEJA AMARGURADA e sentimento faccioso, nem vos glorieis disso, nem mintais contra a verdade. 15 Esta não é a sabedoria que desce lá do alto; antes, é TERRENA, ANIMAL E DEMONÍACA. 16 Pois, onde há INVEJA e sentimento faccioso, aí há CONFUSÃO e toda espécie de coisas ruins. 17 A sabedoria, porém, lá do alto é, primeiramente, pura; depois, pacífica, indulgente, tratável, plena de misericórdia e de bons frutos, imparcial, sem fingimento. 18 Ora, é em paz que se semeia o fruto da justiça, para os que promovem a paz.


Conforme Tiago, a inveja é “terrena, animal e demoníaca” (Tg.3.15). Tais adjetivos apresentam a gravidade do assunto com o propósito de apavorar os leitores que, com certeza, ficariam chocados ao serem comparados a pagãos mundanos, seres irracionais e demônios. Esse choque visa despertar a urgência da necessidade de lutarem contra esse vil pecado que pode destruir não somente uma vida, mas, até mesmo, um cristianismo inteiro.


Conforme o Catecismo Maior de Westminster (p. 126 a 148), a inveja é uma quebra do sexto mandamento, “não matarás” (Ex.20.13), do oitavo mandamento, “não furtarás” (Ex.20.15), do nono mandamento, “não dirás falso testemunho contra o teu próximo” (Ex.20.16) e do décimo mandamento: “Não cobiçarás a casa do teu próximo. Não cobiçarás a mulher do teu próximo, nem o seu servo, nem a sua serva, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem coisa alguma que pertença ao teu próximo” (Ex.20.17).


Portanto, aquele que inveja está quebrando, pelo menos, quatro mandamentos da lei moral, além, é claro, de pecar contra o segundo grande mandamento “Amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Mt.22.39), “porque toda a lei se cumpre em um só preceito, a saber: Amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Gl.5.14).


Conscios da gravidade do assunto, precisamos tomar atitudes. A primeira atitude é examinar o próprio coração. Falando a respeito da Ceia, Paulo nos ensina sobre a importância da prática do autoexame: “Porque, se nos julgássemos a nós mesmos, não seríamos julgados. Mas, quando julgados, somos disciplinados pelo Senhor, para não sermos condenados com o mundo” (1Co.11.31-32). Você já examinou seu coração? O cristão não está isento de pecar, mas ele é capacitado por Deus a examinar sua própria vida e agraciado pelo Senhor para lutar contra todo pecado (Gl.5.16-23). Portanto, pergunte a si mesmo:


- Você está contente com aquilo que Deus lhe deu?

- As conquistas de outros alegram você?

- Você quer ver pessoas se dando bem na vida?

- Você luta pelo bem-estar do outro?

- Você abre mão de seu bem-estar para o outro?


Evidentemente, as perguntas acima devem encontrar dentro do cristão o SIM. Ou seja, o cristão deve amadurecer, de tal modo, no amor que tenha prazer em ver as bênçãos de Deus sobre as pessoas, sem que tenha que dominar sobre elas, pois não precisará ser a razão de tais felicidades. Muitas vezes as pessoas dizem querer o bem do outro, mas apenas quando o bem do outro é causado por essas pessoas. Ou seja, se elas não foram a razão da felicidade, então elas ficam sentidas. Isso não é amor ao outro; isso é amor a si mesmo!


A inveja é um sentimento (e atitude) pecaminoso que consome a alma do pecador. Portanto, o cristão não pode ser escravo da inveja. Caso você perceba que fica aborrecido com o bem-estar de alguém ou que há em você o desejo de controlar outras pessoas ou que você precisa ser a razão para a felicidade dos outros, então corra para os pés de Jesus, a fim de clamar por graça para vencer a luta contra a inveja.


Lembre-se do que disse Tiago 3.13-18: a inveja é maligna e destruidora. Ela pode destruir uma pessoa e pode, também, através dela, destruir muitas outras vidas que não fizeram qualquer coisa para sofrerem nas mãos do invejoso.

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