Deus está salvando você?


Mas agora, ó SENHOR, tu és nosso Pai, nós somos o barro, e tu, o nosso oleiro; e todos nós, obra das tuas mãos” (Is.64.8)


A história da igreja visível é repleta de altos e baixos. Suas páginas testemunham a piedade de homens que negaram a própria vida para glorificar ao Senhor, mas, também, registra tristes episódios envoltos de mentiras, ambição, enganos, avareza, idolatria e impiedade. Fazer a leitura da história da igreja será útil ao amadurecimento de cristãos na humildade, fazendo-os aprender com os erros e acertos do passado. Porém, essa mesma história pode levar alguns cristãos ao pessimismo, comodismo e descaso, um cristianismo infrutífero como terra seca que apenas “produz espinhos e abrolhos” (Hb.6.8).


A questão é que a salvação não significa apenas colocar pessoas dentro de uma instituição religiosa. A salvação é uma grandiosa obra operada no mais íntimo de cada vida. Começando no passado, é operada continuamente no presente e tem sua conclusão no futuro. Ou seja, a salvação começa com a justificação consumada por Cristo na cruz do Calvário, mas vai além da cruz, pois o propósito de Deus é ter um povo santo para si por toda a eternidade. Salvar vidas não é dar-lhes a carteirinha de membro de uma denominação e um livro com todos os dogmas da religião. Salvar vidas é torna-las iguais a Jesus, justificadas pelo sangue do cordeiro e santificados pelo poder da Palavra e do Espírito. Então, pergunto para você: Deus está salvando a sua vida?


Para refletirmos sobre a importância do assunto, precisamos esclarecer o problema da polarização da salvação. Basicamente, há dois grupos extremistas: O primeiro grupo olha apenas para a eternidade, desprezando o presente, se esquecendo que Deus opera em nossas vidas todos os dias para que sejamos mais parecidos com Cristo (2Co.3.18). Esse grupo ignora que a salvação diz respeito à restauração da criação que está debaixo do pecado. Esse olhar desmedido para a eternidade levou algumas pessoas a pensar que a santificação não é importante, estimulando, até mesmo, uma vida libertina, “pois certos indivíduos se introduziram com dissimulação, os quais, desde muito, foram antecipadamente pronunciados para esta condenação, homens ímpios, que transformam em libertinagem a graça de nosso Deus e negam o nosso único Soberano e Senhor, Jesus Cristo” (Jd.4).


Outro grupo, que se encontra no extremo oposto, é composto por aqueles que olham demais para o presente, de modo a transformar a missão da igreja em uma assistência social, atribuindo-lhe um caráter meramente político, reduzindo a salvação à qualidade de vida da sociedade. Por isso, as denominações, muitas vezes, se parecem mais com um clube social agradável, que oferece café, almoço e janta, do que com o Templo do Espírito Santo (1Co.3.16-17; 1Pe.2.1-10). Por isso, tantos querem “ganhar as pessoas do mundo” tornando-se parecidos com elas. O ápice dessa ideia é a teologia da prosperidade que motiva as pessoas a desejarem riquezas e bem-estar como se fossem bênçãos finais da salvação de Deus, ignorando que “os que querem ficar ricos caem em tentação, e cilada, e em muitas concupiscências insensatas e perniciosas, as quais afogam os homens na ruína e perdição. Porque o amor do dinheiro é raiz de todos os males; e alguns, nessa cobiça, se desviaram da fé e a si mesmos se atormentaram com muitas dores.” (1Tm.6.9-10).


A Palavra de Deus nos conduz a olhar para a eternidade com os pés fixos no chão. Ou seja, podemos dizer que o olhar para o novo céu e a nova terra (Ap.21-22) molda nosso olhar para o aqui e o agora, unindo o presente ao futuro, pois a salvação é o operar de Deus em toda a nossa vida, com vistas a eternidade. Desse modo, é certo dizer que Deus está salvando nossas vidas, não apenas que Ele salvou nossas vidas, pois o plano de salvação não pode ser resumido apenas à justificação, ainda que esta seja o fundamental ponto de partida para toda a obra que Deus opera na vida dos pecadores (Rm.5.1). Deus não só perdoa nossos pecados. O Senhor transforma nosso ser tirando os pecados de nossas vidas.


Sendo assim, pergunto novamente: Deus está salvando a sua vida? A importância dessa pergunta pode ser vista na seguinte afirmação de Hebreus 12.14: “Segui a paz com todos e a santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor”. Caso Deus não esteja trabalhando sua vida, a fim de tirar tudo o que é pecado (Hb.12.4-13), significa que você ainda não se converteu de verdade. A verdadeira conversão pode ser considerada o ponto de partida para o trabalho do Supremo Oleiro de nossas vidas. O barro é posto na roda do oleiro por meio da justificação de Cristo Jesus, a fim de que seja trabalhado. Assim, o barro disforme começa a ser modelado pelas habilidosas mãos do Oleiro até se tornar um belíssimo vaso para o louvor da glória daquele que tudo faz muito bom (Gn.1.31).


Você é cristão? Deus está salvando sua vida? Caso sim, você está se tornando um homem mais íntegro, um marido mais responsável e amável, um pai mais dedicado, um trabalhador mais honesto e esforçado etc. De forma semelhante, podemos dizer que mulheres que estão sendo salvas por Deus estão se tornando mais piedosas, esposas mais amáveis e submissas, mães mais cuidadosas, donas de casas mais dedicadas etc. Se nada disse está sendo operado por Deus em sua vida, há uma grande probabilidade de você ainda não ter se convertido, apenas ter se tornado um religioso dentro de uma denominação qualquer. E por mais agradável que seja permanecer na denominação, não garantirá a vida eterna com Deus.


Então, olhe para si mesmo: Deus está salvando sua vida? Deus está salvando seu coração dos maus desejos? O Senhor está salvando sua mente dos maus pensamentos? O Espírito Santo está salvando suas mãos das más atitudes? O Criador está salvando seus lábios das palavras torpes? Jesus está salvando seus pés da queda? O Todo-Poderoso está salvando seus olhos de tudo o que é vil? A salvação é uma obra completa, é Deus nos livrando de todo pecado “pois qualquer que guarda toda a lei, mas tropeça em um só ponto, se torna culpado de todos. Porquanto, aquele que disse: Não adulterarás também ordenou: Não matarás. Ora, se não adulteras, porém matas, vens a ser transgressor da lei” (Tg.2.10-11).


Portanto, quando você diz: “Eu creio em Jesus Cristo, Senhor e Salvador” (Rm.10.9-17), sua vida cheia de defeitos (desonestidade, inveja, egoísmo, hedonismo, mentiras, ambições, idolatria, imoralidades, avareza, rancor, orgulho, maledicência etc.) começa a passar por um processo doloroso de transformação. Esse processo pode ser comparado ao trabalho de um escultor que bate na dura pedra com a marreta e a talhadeira, a fim de tirar tudo o que é indesejado até que apareça a mais bela obra de arte. Tudo isso é chamado de salvação. E a obra de salvação operada por Deus em nossas vidas é o magnum opus (obra prima) do Senhor.


Então, pergunto novamente: Deus está salvando sua vida? Deus tem talhado em você os belos traços do amor, da paciência, da bondade, da alegria no bem-estar do outro, do perdão, da compreensão, da dedicação, do serviço, da honestidade, da verdade, da pureza, da humildade, da abnegação, da esperança, da obediência, do esforço, da misericórdia, da benignidade, da perseverança, da fé? A salvação de sua vida é a justificação e a santificação de seu ser para a esperança do viver o novo céu e a nova terra, uma criação restaurada para ser dada aos filhos de Deus.


E quanto mais o tempo passar, mais parecido com Jesus você deve ficar. Ser diácono, presbítero ou pastor não fará de alguém um santo. Então, não deixe que o tempo nem os cargos eclesiásticos acomodem você ao status de um cristão infrutífero. Peça a Deus: Senhor trabalha minha vida como o Oleiro faz com o barro, como o escultor talha a pedra bruta. Pois, a manifestação externa da salvação de nossas vidas é a transformação diária de nosso ser à imagem de Cristo Jesus.

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