Deus também faz escolhas


Que diremos, pois, se Deus, querendo mostrar a sua ira e dar a conhecer o seu poder, suportou com muita longanimidade os vasos de ira, preparados para a perdição, a fim de que também desse a conhecer as riquezas da sua glória em vasos de misericórdia, que para glória preparou de antemão” (Rm.9.22-23)


Todos nós fazemos escolhas na vida. Da criança ao idoso, todo ser humano tem vontade e faz suas escolhas de acordo com essa vontade. Decidimos o que comer, para onde ir, o que vestir, onde morar, o que comprar, como trabalhar etc. Essa capacidade de fazer escolhas livres movidas por vontade e reflexão provém do Criador que nos fez à sua imagem e semelhança.


Portanto, podemos dizer que só fazemos escolhas, porque Deus faz escolhas. O Senhor, antes de criar todas as coisas, fez escolhas segundo sua vontade que é sempre boa, perfeita e agradável (Gn.1.31; Rm.12.2). O Criador decidiu que o cachorro deveria latir e o gato, miar; como seria a fruta de cada árvore (aparência, sabor, textura, semente etc.); e, que os seres vivos dependeriam de ar, água e alimento para viverem. O Senhor escolheu a bela aparência dos lírios e a forma da barata. Deus decidiu a forma e o propósito de todas as coisas que existem no universo. Logo, tudo o que existe é resultado da livre vontade de Deus, pois o Senhor decidiu que fosse assim.


Ninguém disse a Deus como fazer o universo e nenhuma criatura dirá para Ele: eu gostaria de ser diferente. A mangueira não dirá: “Quero ser uma videira”; o papagai não dirá para Deus: “Eu gostaria de ser um pavão”; nem o porco dirá: “Eu queria ser um leão”. E mesmo que pessoas insatisfeitas queiram mudar a criação, o homem não pode dizer a Deus: “gostaria de ser mulher”; nem a mulher poderá dizer: “Eu gostaria de ser um homem”, de modo que o DNA de cada célula permanecerá sendo o que foi criado para ser. Tudo foi criado conforme a livre vontade de Deus que tem todo direito de decidir o que criar, mas sempre criará de acordo com sua bondade e santidade.


Ó profundidade da riqueza, tanto da sabedoria como do conhecimento de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos, e quão inescrutáveis, os seus caminhos! 34 Quem, pois, conheceu a mente do Senhor? Ou quem foi o seu conselheiro? 35 Ou quem primeiro deu a ele para que lhe venha a ser restituído? 36 Porque dele, e por meio dele, e para ele são todas as coisas. A ele, pois, a glória eternamente. Amém!” (Rm.11.33-36)


Devemos observar que o ser humano usa de sua vontade para dar destino até mesmo às criaturas que não foram criadas por ele. Os cientistas frequentemente fazem experiências em animais para alcançarem descobertas biológicas. Quando surge a fome por carne, o homem não pensa duas vezes em matar um animal para assa-lo na brasa. Animais são postos em jaulas para servirem de exposição em zoológicos. Além disso, há tudo o que o homem cria no dia a dia visando um propósito específico: celular, liquidificador, televisão, carro etc. Ou seja, sendo um ser racional dotado de vontade e tendo a capacidade de dominar sobre a criação, o ser humano dá destino àquilo que está a seu redor.


Por que, então, deveríamos pensar que o Criador de todas as coisas não poderia ter o direito sobre o que fazer com tudo aquilo que Ele criou? Todo criador tem direito sobre sua criatura, pois a criatura lhe deve sua existência. É difícil apresentar uma analogia ideal para exemplificar isso, porque o homem não cria a partir do nada. O homem apenas transforma matérias primas em objetos de seu interesse. Mesmo assim, o homem usa como lhe apraz os objetos que ele faz; muitas vezes com propósitos maus. Todavia, jamais poderíamos pensar que Deus aja em desacordo com seu caráter santo, como disse Tiago: “Ninguém, ao ser tentado, diga: Sou tentado por Deus; porque Deus não pode ser tentado pelo mal e ele mesmo a ninguém tenta” (Tg.1.13).


E o que Deus decidiu em relação à salvação dos homens? O que a Escritura nos ensina sobre a escolha divina para que pecadores sejam salvos e vivam eternamente no novo céu e nova terra? Ou seja, como entender o ensino bíblico sobre a predestinação? Para compreendermos melhor o assunto, precisamos conhecer bem a realidade do estado caído do ser humano. Vale salientar, aqui, que a Palavra de Deus é a única capaz de responder às importantíssimas perguntas existenciais: Por que o ser humano pende constantemente e inevitavelmente para o erro? Por que o ser humano não consegue viver uma vida inteira sem cometer erros? Por que o erro faz parte da vida humana? Por que, mesmo sabendo o que é bom e certo, o homem escolhe o errado? Pecado não é uma matéria nem elemento que a constitui, então, por que não conseguimos retirar o pecado da criação?


A resposta para essas perguntas é encontrada nos três primeiros capítulos da Bíblia: Deus criou o homem puro, mas com a capacidade de pecar, e este homem decidiu se rebelar contra o Criador, não acreditando na Palavra divina, antes dando crédito à serpente e, assim, desobedeceu a Deus, trazendo sobre si a morte e o juízo divino. Desde então, todos os seres humanos herdam a morte, “portanto, assim como por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado, a morte, assim também a morte passou a todos os homens, por isso todos pecaram” (Rm.5.12).


O que fazer com uma humanidade rebelde que vive pecando diariamente por pensamentos, sentimentos, palavras, ações e omissões? Se, sendo puro, o homem não creu na Palavra de Deus, desobedecendo seu Criador (Gn.3), quanto mais homens de corações cheios de maldade (Gn.6.3; Pv.22.15; Jr.17.9)? O que Deus deveria fazer com a triste realidade do estado de profunda miséria do ser humano? O Senhor poderia, simplesmente, condenar todos os seres humanos, já que:


Não há justo, nem um sequer, 11 não há quem entenda, não há quem busque a Deus; 12 todos se extraviaram, à uma se fizeram inúteis; não há quem faça o bem, não há nem um sequer. 13 A garganta deles é sepulcro aberto; com a língua, urdem engano, veneno de víbora está nos seus lábios, 14 a boca, eles a têm cheia de maldição e de amargura; 15 são os seus pés velozes para derramar sangue, 16 nos seus caminhos, há destruição e miséria; 17 desconheceram o caminho da paz. 18 Não há temor de Deus diante de seus olhos” (Rm.3.10-18).


Deus deveria fazer uma escolha: Condenar todos os seres humanos de modo justo, lançando-os no inferno sem qualquer distinção; ou, salvar os pecadores de modo gracioso, providenciando eficaz e definitiva salvação. Evidentemente, Deus não poderia apenas perdoar os pecadores, pois a Palavra de Deus é fiel, já que Deus não pode jamais mentir. Logo, para salvar os pecadores, seria necessário que alguém cumprisse o decreto de Deus que disse: “certamente morrerás” (Gn.2.17). Portanto, alguém precisaria morrer para satisfazer a justiça divina, sofrendo a condenação que havia sido pronunciada (Rm.5.18-19).


Veja que Deus tinha o direito de fazer escolhas em acordo com seu caráter santo, justo, verdadeiro, misericordioso e bom, e Ele escolheu salvar os pecadores por meio do sacrifício de seu Filho que seria enviado, nascendo como homem, vivendo como homem, sofrendo como homem, mas sem jamais pecar (Hb.4.15), para morrer em lugar dos pecadores. O Filho de Deus deveria ser morto sem merecer para que sua morte fosse substitutiva, ou seja, uma morte em lugar daqueles que merecem morrer. Deus decidiu salvar os pecadores que mereciam ser condenados. Essa escolha não era uma obrigação de Deus nem um direito do ser humano. Por sua livre vontade em acordo com seu tão grande amor, Deus decidiu salvar o pecador perdido, glorificando sua eterna bondade.


Todavia, mais uma questão precisava ser decidida por Deus: De que modo a justiça do Filho de Deus seria aplicada ao pecador? Deus poderia simplesmente aceitar o pagamento da dívida de modo universal sem transformar a vida do pecador. Todavia, isso seria um problema, pois não glorificaria a santidade de Deus, já que as pessoas continuariam vivendo em pecado. Desse modo, a salvação estaria incompleta. Para glorificar a Deus, a salvação deveria restaurar a pureza com a qual o ser humano fora criado, a fim de que o novo céu e nova terra fosse habitado por pessoas santas que vivem por amor a Deus (Gl.2.20). O plano de Deus é perfeito como perfeito é Deus, portanto, o Senhor decide operar um grande milagre, transformar completamente o pecador, tirando totalmente o pecado da criação: “Porque é necessário que este corpo corruptível se revista da incorruptibilidade, e que o corpo mortal se revista da imortalidade. E, quando este corpo corruptível se revestir de incorruptibilidade, e o que é mortal se revestir de imortalidade, então, se cumprirá a palavra que está escrita: Tragada foi a morte pela vitória” (1Co.15.53-54).


A morte de Cristo pelos pecadores é parte da solução do problema do pecado, mas não resolve tudo. Justificar pecadores, livrando-os da dívida eterna não muda o coração dos pecadores. A justiça de Cristo diz para o homem que Deus não cobrará mais os pecados cometidos, tanto o pecado original de Adão (universal) quanto os pecados particulares (daqueles que são salvos), pois Jesus sofreu e morreu em nosso lugar, “perdoando todos os nossos delitos; tendo cancelado o escrito de dívida, que era contra nós e que constava de ordenanças, o qual nos era prejudicial, removeu-o inteiramente, encravando-o na cruz” (Cl.2.13-14). Mas, a justiça de Cristo não muda o coração do pecador, fazendo-o puro para não pecar mais. Algo a mais é necessário para que a salvação do pecador glorifique a santidade de Deus. Seria necessário que Deus operasse dentro do ser humano, a fim de livra-lo da atuação do pecado nele (Rm.8.2; Gl.5.16-17). Ou seja, seria necessário tirar o pecado do homem para que este homem pudesse ter uma vida pura outra vez. Portanto, a salvação possui duas partes fundamentais: 1) a justificação por meio de Cristo; 2) a santificação realizada pelo Espírito Santo que opera por meio da Santa Palavra divina.


Mais uma vez, Deus fez uma escolha. O Senhor decidiu que a salvação não somente daria a justiça de Cristo, justificando o pecador, mas, também, daria a santidade do Espírito, purificando a vida do ser humano para que este pudesse viver eternamente na presença do Santíssimo Deus. E para santificar a vida do pecador, Deus decidiu enviar o Santo Espírito, a fim de que aplicasse a Palavra divina santificadora ao coração do ser humano, tornando eficaz a salvação de Cristo na vida do pecador justificado. Ou seja, Deus decidiu restaurar o pecador completamente, para uma nova e eterna vida santa (Rm.8.19-21; 1Co.15.50-58; Ap.21.1-7). Vemos, então, que a salvação tanto é uma decisão do Senhor quanto depende completamente do agir de Deus que entregou se Filho e envia seu Santo Espírito para agir na vida do pecador.


Devemos observar, ainda, que a escolha divina de santificar o pecador vai além da restauração do estado original do homem. A queda de Adão, mesmo ele sendo puro, não conhecendo o mal (Gn.3.5) revela para nós que não basta ter pureza no coração, é preciso ser preservado por Deus para não pecar contra Ele. O homem não conhecia o mal, mas o mal o atraiu fortemente e o fez cair. Portanto, não basta fazer o homem puro, é preciso que Deus o faça incapaz de pecar. Por isso, Paulo nos revela que, na restauração da criação, no dia da volta de Cristo, Deus transformará seu povo tornando-o incorruptível e imortal (1Co.15.53-54). É possível que os dois termos estejam se referindo ao fim da morte (2Tm.1.10). Todavia, ainda assim eles indicam a necessidade de que não mais nos seja dada uma opção: vida e bem ou morte e mal. Precisamos que o Senhor nos faça completos, sem a possibilidade de o mal entrar em nossas vidas, a fim de que a queda do homem não aconteça novamente.


Observe que a salvação inteira é o resultado de escolhas livres de Deus, visando santos propósitos divinos: “No céu está o nosso Deus e tudo faz como lhe agrada” (Sl.115.3). Mais uma escolha Deus quis fazer, para glorificar seu Ser e suas obras. Deus tinha duas opções: Aplicar a salvação (justificação e santificação) a todas as pessoas para que todos vivessem na eternidade com Ele; ou, aplicar a salvação apenas a alguns pecadores, já que ninguém merecia ser salvo. Portanto, Deus fez uma escolha quanto a quem receberia a graça da salvação. Toda a obra redentora é um plano, pois em todo o tempo Deus está fazendo escolhas. E Deus não quis aplicar a salvação na totalidade dos pecadores, apesar do Senhor ter todo poder para salvar do primeiro ao último homem, pois “a Salvação pertence ao Senhor” (Jn.2.9):


“Eu, eu sou o SENHOR, e fora de mim não há salvador. 12 Eu anunciei salvação, realizei-a e a fiz ouvir; deus estranho não houve entre vós, pois vós sois as minhas testemunhas, diz o SENHOR; eu sou Deus. 13 Ainda antes que houvesse dia, eu era; e nenhum há que possa livrar alguém das minhas mãos; agindo eu, quem o impedirá?” (Is.43.11-13)


Conforme a livre vontade de sua escolha, o Senhor decidiu que apenas parte dos seres humanos seriam beneficiados com a graça da salvação. À primeira vista, poderíamos dizer, precipitadamente, que essa parte é composta daqueles que creem em Deus, mas não seria correto, pois excluiríamos aqueles que morreram na infância (fetos, recém-nascidos, bebês, crianças) e, também, estaríamos descartando as pessoas mentalmente incapazes. Nem crianças nem pessoas mentalmente incapazes professam sua fé publicamente; eles não confessam Cristo como Senhor e Salvador diante dos homens, conforme disse Paulo em Romanos 10.8-17. Portanto, não podemos dizer que o critério único, absoluto e universal para a salvação é a fé, pois, com certeza, há muitas pessoas que serão salvas sem ter crido em Deus, pelo menos não de modo verbal público, pois eram crianças ou incapazes.


Isso nos leva a uma necessária reflexão: se Deus pode salvar uma criança perdoando os pecados dela por meio de Cristo e aplicando nela a santificação do Espírito, “sem a qual ninguém verá o Senhor” (Hb.12.14), por que Deus não poderia fazer o mesmo com todos os demais homens? Por que Deus não salva todas as pessoas independentemente da fé? Certos de que ninguém pode justificar a si mesmo, a justificação depende completamente de Deus (At.4.12). E, certos de que ninguém é capaz de santificar sua própria vida a tal ponto de restaura-la ao estado de pureza original (até a impecabilidade – 1Co.15.50-58), vemos que a santificação é uma obra que depende completamente do operar do Espírito Santo na vida do pecador (1Co.3.18). Conforme o profeta Ezequiel havia profetizado:


“Então, aspergirei água pura sobre vós, e ficareis purificados; de todas as vossas imundícias e de todos os vossos ídolos vos purificarei. 26 Dar-vos-ei coração novo e porei dentro de vós espírito novo; tirarei de vós o coração de pedra e vos darei coração de carne. 27 Porei dentro de vós o meu Espírito e farei que andeis nos meus estatutos, guardeis os meus juízos e os observeis” (Ez.36.25-27)


Outra vez, nos deparamos com a livre escolha divina. Deus quis que a justiça de Cristo fosse imputada a alguns independentemente da confissão de sua fé, e também quis que outros fossem salvos por meio de sua confissão de fé demonstrada não somente em palavras, mas, sobretudo, em ações e perseverança até o dia da morte. Tudo isso foi uma decisão divina, não uma obrigação ou uma necessidade. Deus poderia ter escolhido salvar a totalidade dos homens sem exigir deles nada, nem mesmo a fé. Todavia, o Senhor decidiu que salvaria uns através da confissão de sua fé e salvaria outros independente da manifestação externa dessa fé; e que os demais não seriam salvos, “Por isso, quem crê no Filho tem a vida eterna; o que, todavia, se mantém rebelde contra o Filho não verá a vida, mas sobre ele permanece a ira de Deus” (Jo.3.36).


É fundamental frisarmos, aqui, que o ser humano não conseguiu crer e andar com Deus nem mesmo quando era puro, quando não tinha pecado algum e seu coração não conhecia nenhuma maldade (Gn.3.1-11). Tudo o que Adão conhecia era o bem, mas não foi capaz de preservar sua pureza. Muito menos o homem pecador será capaz de crer e obedecer sem o operar gracioso de Deus. O paralelo mostra quão impossível é ao homem no estado de pecador, com um coração enganoso, depositar total confiança em Deus e andar todos os dias com Ele, pois “enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e desesperadamente corrupto; quem o conhecerá?” (Jr.17.9). Ou seja, temos diante de nós uma questão importante: Se Adão e Eva, quando em condição superior à nossa, com uma natureza sem pecado, não foram capazes de garantir a preservação da própria vida, como nós pecadores garantiremos nossa salvação estando em estado muito inferior por causa do pecado presente em cada parte de nosso corpo, inclinando-nos constantemente para o que é mal (Rm.7.13-25)? Como seremos capazes de preservar nossa proporia vida em fé e santificação, sendo pecadores marcados pelo pecado, conforme a descrição do apóstolo Paulo em Romanos 3.10-18?


Ou seja, além da justificação em Cristo Jesus e da santificação que o Espírito Santo opera, há também a necessidade da ação divina para que o pecador, tão marcado pelos males do pecado (Ef.2.1), consiga realmente crer e andar com Deus até o fim de sua vida. A preservação do pecador em uma vida de fé, amor e esperança junto a Deus é também uma obra graciosa de Deus, um milagre divino operado no homem. Se um homem e uma mulher puros de mente e coração não foram capazes de ser fiéis a Deus por toda a vida, o que nos faz pensar que pecadores, profundamente marcados pela maldade do pecado, serão capazes de ser fiéis a Deus por toda a vida? Vemos, então, que o milagre da salvação é um operar completo de Deus em nossas vidas, garantindo que andaremos perseverantemente com Ele até o último dia para que recebamos a coroa da vida eterna e sejamos totalmente transformados.


Em Romanos 1, Paulo nos diz que um dos juízos do Senhor para uma geração é o abandono para que as pessoas vivam segundo o próprio coração pecador fazendo tudo o que o pecado mandar até destruírem-se a si mesmas: “A ira de Deus se revela do céu contra toda impiedade e perversão dos homens que detêm a verdade pela injustiça. [...] Por isso, Deus entregou tais homens à imundícia, pelas concupiscências de seu próprio coração, para desonrarem o seu corpo entre si. [...] Por causa disso, os entregou Deus a paixões infames; [...] E, por haverem desprezado o conhecimento de Deus, o próprio Deus os entregou a uma disposição mental reprovável, para praticarem coisas inconvenientes” (Rm.1.18,24,26,28). Isso significa que Deus está sempre intervindo para que o ser humano não dê total vazão ao pecado. E se Deus faz isso com o mundo para que este não se destrua completamente, quanto mais com aqueles que Ele ama e justificou em Cristo Jesus. Logo, a perseverança dos fiéis na fé, amor e esperança é fruto da intervenção divina. Não foi por acaso que Jesus nos ensinou a pedir tudo por meio da oração dominical (oração do Pai nosso):


“Portanto, vós orareis assim: Pai nosso, que estás nos céus, santificado seja o teu nome; 10 venha o teu reino; faça-se a tua vontade, assim na terra como no céu; 11 o pão nosso de cada dia dá-nos hoje; 12 e perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós temos perdoado aos nossos devedores; 13 e não nos deixes cair em tentação; mas livra-nos do mal, pois teu é o reino, o poder e a glória para sempre. Amém!” (Mt.6.9-13)


Nessa oração, pedimos a Deus absolutamente tudo: a santificação, a vontade divina, o sustento diário, o perdão dos pecados e a graça para não pecar contra Deus. A oração nos ensina a jamais nos gabarmos da capacidade de vencer tentações, pois isso não vem de nós, conforme disse Deus para Abimeleque: “Respondeu-lhe Deus em sonho: Bem sei que com sinceridade de coração fizeste isso; daí o ter impedido eu de pecares contra mim e não te permiti que a tocasses” (Gn.20.6). O apóstolo Pedro experimentou muito bem isso quando tentou mostrar orgulhosa prontidão para seguir Jesus até a morte, mas, logo em seguida, Jesus mostrou-lhe que ele não era capaz nem mesmo de ser fiel no pouco, diante de pequenos desafios: “Ele[Pedro], porém, respondeu: Senhor, estou pronto a ir contigo, tanto para a prisão como para a morte. Mas Jesus lhe disse: Afirmo-te, Pedro, que, hoje, três vezes negarás que me conheces, antes que o galo cante.” (Lc.22.33-34).


Pedro deveria ter sido humilde diante do Senhor e orado: “não nos deixes cair em tentação; mas, livra-nos do mal” (Mt.6.13). Após a dádiva do Espírito Santo, por ocasião do Pentecostes, encontraremos um Pedro mudado, desejoso de viver para Cristo, mas convicto de que sua vida é fruto da graça divina e, assim, ele ora com a igreja: “agora, Senhor, olha para as suas ameaças e concede aos teus servos que anunciem com toda a intrepidez a tua palavra” (At.4.29). Mais adiante, quando o apóstolo Paulo estava sendo perturbado por um mensageiro de Satanás, Deus o conforta com as seguintes Palavras: “A minha graça te basta, porque o poder se aperfeiçoa na fraqueza” (1Co.12.9). Não por suas próprias forças, mas pelo poder de Deus, o apóstolo resistiria ao mensageiro de Satanás e suportaria o período de grande provação.


Mesmo que todos os seres humanos sejam capazes de exercer fé em alguma medida, a justificação, a santificação e a perseverança somente podem ser aplicadas à vida do pecador por meio de uma decisão do próprio Deus. Ou seja, é preciso que Deus dê seu Espírito ao pecador para que este pecador desfrute da maravilhosa obra redentora, pois o pecador não é capaz de se justificar nem se santificar. Não é algo que está no pecador, mas algo que Deus dá ao pecador graciosamente, segundo sua livre vontade. Portanto, a decisão de abençoar o pecador com a graciosa salvação foi uma escolha livre da vontade de Deus. Logo, nenhum pecador poderá se gabar de ter alcançado a salvação por seus méritos.


Por isso, a Escritura diz que Deus decidiu escolher alguns dos que estavam no meio da grande procissão de pecadores indo para o inferno. Mas, quais critérios Deus usou para escolher esses alguns? A Bíblia não nos revela, apenas diz que Deus não fez acepção de pessoas, ou seja, não escolheu pessoas por serem ricas ou pobres, brancas ou pretas, doutas ou incultas. Desse modo, ninguém pode gabar-se de ser salvo, pois, de modo algum, Deus salva pecadores por méritos deles. E uma vez que não depende dos pecadores, Jesus afirmou que ninguém pode tirar as ovelhas de suas mãos. Ou seja, nenhum lobo voraz conseguirá destruir as verdadeiras ovelhas de Cristo, porque Deus mesmo as guardará (Sl.23.4):


“Mas vós não credes, porque não sois das minhas ovelhas. 27 As minhas ovelhas ouvem a minha voz; eu as conheço, e elas me seguem. 28 Eu lhes dou a vida eterna; jamais perecerão, e ninguém as arrebatará da minha mão” (Jo.10.26-28)


Diante de tudo isso, perguntamos: Deus tem o direito de escolher, dentre todos os pecadores perdidos, aqueles que quiser conduzir para a eternidade? O grande plano de salvação é o resultado de diversas escolhas livres de Deus. E nessas escolhas Deus mostra a grandeza de suas misericórdias naqueles que Ele decidiu abençoar com a justificação, a santificação e a perseverança na fé, amor e esperança. Cônscios disso, cabe-nos louvar a Deus por sua misericórdia para conosco, pois nada merecíamos nem poderíamos fazer por nossas próprias vidas, contudo recebemos do Senhor tudo o que é necessário para a nossa salvação.

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