Olhe para o coração


Porém o SENHOR disse a Samuel: Não atentes para a sua aparência, nem para a sua altura, porque o rejeitei; porque o SENHOR não vê como vê o homem. O homem vê o exterior, porém o SENHOR, o coração” (1Sm.16.7)


Para quem você se veste? Boa parte das pessoas se vestem para impressionar a sociedade. Ou seja, há uma grande preocupação com a aparência diante dos outros. Mas, por quê? Porque as pessoas julgam a aparência! Para o mundo, você é aquilo que demonstra ter: roupas, carro, casa etc. Portanto, é mais importante mostrar um sorriso fingido do que falar da verdadeira tristeza do coração; é preferível elogiar falsamente a revelar para o outro o que realmente pensa sobre seus defeitos.


Essa preocupação com a aparência não é algo novo. O belíssimo sermão do monte (Mt.5-7) é uma ampla exortação a uma vida religiosa profunda e sincera, que brote de corações transformados pelo operar da Palavra e do Espírito do Senhor. Cristo estava diante de uma sociedade fingida, acostumada apenas com a aparência, então Jesus mostra que a aplicação da lei começa no coração, porque Deus vê o coração, como havia dito Deus para o profeta Samuel: “Porém o SENHOR disse a Samuel: Não atentes para a sua aparência, nem para a sua altura, porque o rejeitei; porque o SENHOR não vê como vê o homem. O homem vê o exterior, porém o SENHOR, o coração” (1Sm.16.7).


“Quando, pois, deres esmola, não toques trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas, nas sinagogas e nas ruas, para serem glorificados pelos homens. [...] Quando jejuardes, não vos mostreis contristados como os hipócritas; porque desfiguram o rosto com o fim de parecer aos homens que jejuam.” (Mt.6.2,16)


Com profundidade e clareza, Jesus traz à tona as muitas implicações da pergunta feita por Deus através do profeta Isaías: “Quando vindes para comparecer perante mim, quem vos requereu o só pisardes os meus átrios?” (Is.1.12). Quem disse que Deus está olhando apenas as aparências? Quem disse que os ritos aparentes satisfazem a Deus quando o coração está cheio de maldade? Quem disse que falar bonito para uma igreja, para um presbitério ou para um sínodo, enquanto planeja derrubar o próximo ou dominar sobre ele, enganará o Senhor da igreja, Aquele que sonda o mais profundo dos corações?


Essa preocupação limitada às aparências traz sérios problemas para a relação pessoal e eclesiástica com Deus. Podemos ver claros exemplos disso nos evangelhos. Em Mateus 12.9-14, Jesus curou um homem no dia de sábado. Então, vários judeus começaram a acusar Jesus de quebrar a lei do sábado. Todavia, uma vez que não convenceram Jesus, os fariseus se retiraram para planejar como iriam matar Jesus que havia feito o bem a um homem por meio de um milagre. Jesus não podia curar no sábado, mas os fariseus podiam odiar e matar Jesus. E eles não viram problema nisso. Por causa dessas incoerências, Cristo afirmou: “Hipócritas! Bem profetizou Isaías a vosso respeito, dizendo: Este povo honra-me com os lábios, mas o seu coração está longe de mim” (Mt.15.7-8).


Os judeus perseguiram Jesus durante boa parte de seu ministério, principalmente porque Jesus fazia milagres no dia de sábado. Eles nunca se perguntaram se a Palavra de Deus proibia fazer o bem a alguém necessitado no dia de descanso. A dureza de coração não deixava que vissem a Verdade. Eles estavam preocupados apenas com a aparência, preocupados com a forma como as pessoas olhariam para eles. Então, negligenciaram a necessária pureza e beleza do coração: “Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, porque dais o dízimo da hortelã, do endro e do cominho e tendes negligenciado os preceitos mais importantes da Lei: a justiça, a misericórdia e a fé; devíeis, porém, fazer estas coisas, sem omitir aquelas!” (Mt.23.23).


A cegueira espiritual daquela geração preocupada apenas com a aparência, quer de ritos quer de práticas cotidianas, fez Jesus dedicar bastante tempo a ensinar-lhe que a verdadeira religião tem sua sede no coração, pois Deus vê o coração do homem. Gênesis 4 nos revela que Deus rejeitou o culto de Caim não somente por causa daquilo que ele havia trazido, “do fruto da terra” (Gn.4.3), mas, também, porque Deus viu maldade no coração de Caim (Gn.4.5-7). Deus não se engana com a aparência do homem, porque Deus olha para o coração pecador antes de ver o seu rosto, pois é do coração que brota todo pecado (Jr.17.9):


E, tendo convocado a multidão, lhes disse: Ouvi e entendei: 11 não é o que entra pela boca o que contamina o homem, mas o que sai da boca, isto, sim, contamina o homem. [...] 18 Mas o que sai da boca vem do coração, e é isso que contamina o homem. 19 Porque do coração procedem maus desígnios, homicídios, adultérios, prostituição, furtos, falsos testemunhos, blasfêmias. 20 São estas as coisas que contaminam o homem; mas o comer sem lavar as mãos não o contamina. (Mt.15.10-20)


Vemos, então, que a maldade do coração é tão grave diante de Deus quanto os pecados praticados aos olhos dos homens. As implicações podem ser diferentes, mas a ofensa a Deus é semelhante: “Todo aquele que odeia a seu irmão é assassino; ora, vós sabeis que todo assassino não tem a vida eterna permanente em si” (1Jo.3.15). Logo, todo cristão deve se preocupar com o que pensa seu coração, não apenas com aquilo que as pessoas veem. Então, eu pergunto: Como está seu coração? Quando você vai ao culto, não é apenas sua roupa que Deus vê, nem mesmo seu sorriso aparente. Deus vê seu coração do jeito que ele está, quer bem quer mal.


Portanto, precisamos purificar o cristianismo a partir do coração de cada cristão. Não basta tirar hereges do meio da igreja nem disciplinar aqueles que cometem faltas aparentes diante das denominações. É preciso purificar também o coração: “purificai as mãos, pecadores; e vós que sois de ânimo dobre, limpai o coração” (Tg.4.8). Inveja, ódio, orgulho, ambição, desejo de dominar são pecados seríssimos diante dos olhos daquele que tudo vê. Maquinar o mal é um pecado muito grave, mas, a menos que algo errado seja visto pelas pessoas, esse pecado passará desapercebido pelas denominações, como se nenhum pecado tivesse sido cometido, exatamente como ocorreu com a liderança político-religiosa dos dias de Jesus: “E Pilatos lhes respondeu, dizendo: Quereis que eu vos solte o rei dos judeus? Pois ele bem percebia que por inveja os principais sacerdotes lho haviam entregado” (Mc.15.9-10)


Quantos cristãos tomam atitudes motivadas pelo orgulho do coração? Quantas pessoas saem de igrejas por causa de raiva ou rancor do coração? Quantos pastores trocam de igreja por causa da avareza do coração? Quantos cristãos fazem a obra de Deus para serem vistos motivados pela vaidade do coração? Quantos membros, presbíteros e pastores das denominações planejam formas de derrubar alguém indesejado, fazendo uso das leis da denominação? Todos esses são pecados sérios! Mas, como o mal é feito dentro da legalidade, ninguém observa a gravidade do assunto. Como os pecados são guardados dentro do coração, ninguém atribui a devida gravidade. Depois, essas pessoas estão falando de amor, no púlpito, pregando sobre oração e dependência de Deus, ensinando sobre a soberania do Senhor e, ainda, partilhando a Ceia, dizendo: Somos o corpo de Cristo.


Todo pecado fere a santidade de Deus! Não importa o quanto os homens aceitem o pecado. A Ideologia de gênero é grave afronta ao Criador, mas os homens não percebem, porque estão se acostumando. Planejar o mal, maquinar derrubar alguém, espionar pessoas para tentar encontrar algum erro nelas são pecados. Foi exatamente isso que os fariseus, escribas e saduceus fizeram para matar o Senhor Jesus (Mc.3.2; Jo.8.6). Mas, porque tudo isso passa desapercebido? Porque não é aparente. A maldade do coração, inveja, ódio, desejo de dominar sobre os outros, interesse em derrubar o próximo e planos malignos não podem ser vistos e, por isso, não são tratados com seriedade. Mas, se um tesoureiro desviar dinheiro da igreja e for descoberto com provas, então todos dirão: Que absurdo! Ele deve ser disciplinado! Que pecado grave roubar a igreja!


Um pecado não anula o outro. Mas, o problema é que o viver de aparência transforma o cristianismo em uma religião hipócrita. Podemos dizer, com certeza, que há muito mais maldade sendo planejada, desejada e executada sorrateiramente, a partir dos corações de cristãos, do que problemas visíveis e disciplináveis. E diante de Deus quem trama o mal contra seu irmão já o matou (Mt.5.21-26); quem olhou para uma mulher com olhar impuro já adulterou (Mt.5.27-32). Logo, a igreja precisa começar a ser purificada em seu coração, para que suas ações sejam fruto da pureza de corações verdadeiramente piedosos


Certa vez, vi um pastor tentar tirar outro pastor da igreja usando recursos legais da denominação, de um modo sutil e sorrateiro. Ele tentou colocar o pastor sob a responsabilidade do presbitério para que em seguida pudessem transferi-lo para outro lugar e, provavelmente, pressioná-lo a querer sair. Com certeza, em nenhum momento perguntaram para Deus: O Senhor quer aquele pastor naquela igreja? Qual é a vontade do Senhor para aquele pastor? Em vez disso, deixaram que a maldade do coração orgulhoso tomasse a frente maquinando o mal. Será que houve arrependimento posterior? Provavelmente, não! E o pastor maldoso seguiu em frente como se não tivesse feito nada. E deve, ainda, estar pregando sobre o amor por aí.


A tecnologia potencializou os pecados do coração de muitos. Hoje, há quem coloque escuta na igreja para espionar as pessoas. Há até mesmo quem invada a rede social alheia para tentar fiscalizar. Tudo isso é estranho à Palavra de Deus e nenhuma dessas práticas criminosas pode ser considerada uma aplicação correta do ensino de Paulo: “Atendei por vós e por todo o rebanho sobre o qual o Espírito Santo vos constituiu bispos, para pastoreardes a igreja de Deus, a qual ele comprou com o seu próprio sangue” (At.20.28). Mas, a cegueira do coração não permite que vejam quantos graves pecados estão cometendo silenciosamente (Mt.18).


Olhe para seu coração, a fim de lutar contra os pecados encontrados dentro dele! O fruto do Espírito não é uma roupa que você veste aos domingos nem um comportamento aparente que você demonstra para as pessoas nem um relatório, documento ou ata feitos para impressionar pessoas. O fruto do Espírito é a santidade de Deus dentro do coração do cristão: “o fruto do Espírito é: amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, domínio próprio” (Gl.5.22-23). Se Deus não encontrar o fruto do Espírito em seu coração, tampouco será encontrado por Deus em suas obras.


A beleza do cristianismo não está em suas catedrais, sua complexa organização política, suas vestes clericais, sua estrutura ampla, seus recursos disponíveis. A beleza do cristianismo é Cristo nos corações daqueles que se achegam a Deus em seu mais profundo íntimo, movidos pelo Espírito operando dentro deles. A beleza do cristianismo é a verdadeira pureza divina reluzindo nos corações por meio do agir do Espírito que tem poder para sobrepor todo pecado santificando o pecador. Portanto, não seja um cristão de aparência, seja um cristão de coração.


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